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Vítima de violência doméstica, mulher relembra agressões e fala sobre processo de auto perdão: 'Superei muita coisa'

2026-03-08 - 11:13

Vítima de violência doméstica relembra agressões e fala sobre processo de auto perdão Neste sábado (8), Dia Internacional da Mulher, muitas recebem flores e palavras de conforto. Porém, os 27 feminicídios registrados apenas em janeiro no estado de São Paulo mostram que, muito além de rosas e lembrancinhas bonitas, as mulheres vivem em constante alerta, sobrevivendo à violência doméstica e a outras formas de agressão. É o caso de uma moradora de Sorocaba (SP), de 49 anos, que preferiu não se identificar. Ela carrega marcas que vão além das cicatrizes físicas: precisou aprender a amar um filho que nasceu de uma situação de abuso, além de conviver com memórias de anos de agressões. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp "Vim de uma família muito carente, muito pobre, e não tinha muita informação. Meu pai era muito rigoroso, parecia um carrasco. Até meu irmão me agredia o tempo todo. Por isso, eu queria sair cedo de casa para ser feliz", relata. Aos 15 anos, o sonho de escapar das agressões tornou-se um pesadelo. Ela passou por três companheiros. O primeiro a agredia frequentemente, chegando a esfaqueá-la na perna. "Vivi um ano com ele e sofri muito. Não chegamos a nos casar; fui morar na casa da mãe dele, vivendo em extrema escassez. Ele acabou me abandonando grávida, após meses de violência doméstica", diz. Violência contra a mulher Jainni Victória Após ser abandonada, ela conta que retornou para casa e foi forçada pelo pai a se casar com outro homem. Foi neste relacionamento que engravidou do segundo filho, após ser violentada sexualmente. "Eu queria ficar solteira e cuidar do meu filho. Mas fui coagida e me casei logo após o nascimento dele. Sofri muito, pois ele [marido] era irresponsável e não trabalhava, e morávamos na casa da minha sogra por falta de condições de pagar aluguel", relata. Apesar de não ter sofrido violência doméstica, o abuso ainda assim causou danos quase irreparáveis em sua vida. A vítima confessa que, quando a criança nasceu, demorou a sentir amor pelo próprio filho. "Quando eu olhava para meu filho, via o rosto do agressor. Não conseguia sentir amor. Passei anos tratando meu filho mal, mesmo sabendo que ele não tinha culpa. Depois de adulto, justifiquei o porquê de tê-lo maltratado tanto. Me arrependo muito", desabafa. Já no terceiro relacionamento, ela relata que sofreu agressões seguidas de uma tentativa de feminicídio durante quatro anos. Segundo a mulher, apesar de responsável e trabalhador, o homem era possessivo e ciumento. "Eu engravidei dele com o meu terceiro filho. Durante uma crise de ciúmes, ele chegou a pisar na minha barriga. Ele não me deixava sair de casa para trabalhar e me vigiava constantemente. Eu vivi em cárcere privado", diz. Violência contra mulher, violencia doméstica, sobrevivência feminina Bruna Bonfim/g1 De acordo com a vítima, o terceiro filho nasceu doente e, quando ela pedia ajuda de vizinhos para cuidar da criança, o marido se irritava e ameaçava matá-la e se matar o tempo todo, além de diminuí-la constantemente. "Teve um dia em que eu estava dormindo com meus filhos e ele chegou à noite jogando álcool em mim. Eu senti o cheiro forte e acordei. Quando ele ia acender o fósforo, me joguei em cima dele e comecei a lutar. Ele iria me queimar viva. E, consequentemente, meus filhos também", diz. Devido às complicações, o terceiro filho não resistiu e morreu. A situação contribuiu para que ela ficasse ainda mais doente psicologicamente. "Mesmo com toda essa pressão, ele assumiu cuidar dos meus filhos, e a casa tinha comida e provisão, algo que nunca tinha tido antes. Por conta disso, demorei muito para sair desse ciclo. Ao longo desse período, enfrentei depressão e me sentia inútil e burra", diz. Problemas de saúde Durante o estresse constante em toda a sua vida, a mulher revela que também precisou conviver com a fibromialgia, uma síndrome crônica caracterizada por dor muscular generalizada e sensibilidade. "Até hoje (20 anos depois) tomo muitos remédios para controlar a dor, mas a maioria das vezes tenho crises muito fortes. Essa doença não tem cura; tenho que conviver com esse problema, que provavelmente foi desencadeado após anos de violência que sofri", diz. A psicóloga Thais Mazzoti, também de Sorocaba, explica que a doença pode ter relações com aspectos emocionais. No entanto, enfatiza que não é possível afirmar que determinados eventos da vida tenham causado diretamente a doença. "A saúde precisa sempre ser compreendida de forma multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Ou seja, não necessariamente uma situação leva diretamente à outra", diz. Imagem violência contra a mulher. Divulgação/Senado Federal No entanto, a especialista reforça que as experiências de sofrimento intenso, traumas e estresse prolongado podem ter influenciado o funcionamento do organismo e contribuído para o surgimento ou agravamento da doença. "A condição pode impactar diversas áreas da vida da pessoa: fadiga intensa, alterações cognitivas, dificuldades no sono, mudanças de humor, sensibilidade corporal, além de repercussões na autoestima e no bem-estar emocional", diz. Em estudos com pacientes que possuem a doença, a psicóloga explica que são descritos relatos de diferentes tipos de violência, como o abuso emocional, caracterizado por situações em que a pessoa é constantemente diminuída e humilhada. "Nesse sentido, a dor física e a dor psíquica são vividas de maneira muito particular e subjetiva por cada indivíduo. Por isso, ter uma rede de apoio e relações de confiança pode ser fundamental no processo de cuidado e reconstrução da própria história", diz. 'Não consigo me perdoar' Violência contra a mulher Jainni Victória Após o terceiro casamento, a vítima conta que finalmente encontrou um homem completamente diferente dos seus ex-companheiros. Ela já está com ele há 20 anos. "Ele me trata bem. Me ajudou a superar muitas coisas, me acompanha no psiquiatra e no psicólogo, entende minhas crises. Ele sempre me coloca para cima, diz que sou inteligente e capaz de tudo", diz. Atualmente, além dos medicamentos para a fibromialgia, ela também faz tratamento contra ansiedade e depressão, além ser acompanhada psicologicamente. "Com a psicóloga, consegui superar muitas coisas. Antes, eu tinha pavor de pessoas, principalmente de homens. Não conseguia conversar com ninguém direito, porque acreditava firmemente que todos se aproveitariam de mim", diz. A mulher reforça que, apesar de todos os abusos sofridos, não sente ódio nem rancor. Muito pelo contrário: ela afirma que está em processo de perdoar a si mesma. "Eu não sinto ódio dos meus agressores. Às vezes sinto raiva de mim mesma. Tenho dificuldade, não consigo me perdoar. É algo que estou trabalhando com minha psicóloga. Mas é muito difícil. Não consigo entender como me deixei passar por essas coisas", revela. "Mesmo assim, posso dizer que superei muita coisa. E quero reforçar que nós, mulheres, não devemos aceitar nenhum tipo de agressão. Sempre busque independência, uma maneira de não depender dos seus companheiros. Faça diferente. Nós, mulheres, podemos tudo; somos fortes e inteligentes", finaliza. Psicóloga Thais Mazzoti, de Sorocaba (SP), fala sobre sinais de violência contra a mulher Arquivo Pessoal *Colaborou sob supervisão de Júlia Martins Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

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