USP ajuda a corrigir dado histórico sobre câncer de cabeça e pescoço e abrir caminho para novos tratamentos
2026-03-22 - 13:40
VÍDEO REELS DA NOSSA EDITORIA CADASTRADO NA EF, FALTA PUBLICAR | PARA O INSTAGRAM, ESTÁ SALVO NO DIVERSOS > G1 > INSTAGRAM G1 PARA PUBLICAR > MARÇO | ID: 14412165 Uma pesquisa internacional que contou com a participação de pesquisadores da USP de Ribeirão Preto (SP) revelou que as variantes mais raras e graves do carcinoma espinocelular, um dos tipos mais agressivos de câncer de cabeça e pescoço, são menos frequentes do que se acreditava. O estudo, publicado na revista científica Annals of Diagnostic Pathology, analisou dados de mais de 1,4 mil pacientes e mostrou que essas variações aparecem em menos de 5% dos casos, corrigindo uma estimativa de 15% que era utilizada pela medicina há décadas. Além de mapear a frequência dessas variantes, o estudo mostrou que a relação desse câncer com o vírus HPV no Brasil é de apenas 25%, um índice muito inferior aos 70% registrados na Europa e nos Estados Unidos (entenda mais abaixo). Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp Essa diferença exige estratégias de tratamento específicas para a realidade brasileira, permitindo que os médicos avaliem com maior precisão o risco de cada paciente e evitem tratamentos excessivamente agressivos sem necessidade. Pesquisadores Jorge Léon e Fernando Chahud, da USP de Ribeirão Preto (SP), durante análise de dados da pesquisa internacional Reprodução EPTV LEIA TAMBÉM Estudo revela ligação entre bactéria na boca e câncer de cabeça e pescoço Crianças viram repórteres por um dia no Hospital de Amor e contam a história da fundadora: 'Salvou minha vida' O olhar no microscópio e a diferença das células O carcinoma espinocelular é o principal tipo de tumor a atingir a região da boca e da garganta, apresentando baixas taxas de cura quando o diagnóstico ocorre em estágios avançados. Um dos maiores desafios para o tratamento eficaz reside na identificação visual das células cancerígenas sob o microscópio, já que as características físicas do tumor determinam a agressividade da doença. Os pesquisadores explicam que o tipo mais comum, classificado como convencional, apresenta células rosadas e arredondadas. Sob o microscópio, o carcinoma convencional apresenta células rosadas e arredondadas; é o tipo mais comum da doença Reprodução EPTV Por outro lado, as variantes raras, como a chamada fusiforme, possuem células mais claras e de formato alongado. Essa diferença física indica uma maior capacidade de o câncer se espalhar rapidamente, exigindo uma postura mais firme da equipe médica logo no início do tratamento. "Quando a gente detecta essa variante, é importante fazer um diagnóstico correto. É o mesmo tipo de tumor daquele convencional, mas com uma morfologia um pouco diferente. Esse diagnóstico ajuda o oncologista clínico a indicar o melhor tratamento para aquela variante específica, se for necessário usar um tratamento mais intenso", detalha o pesquisador da USP, Fernando Chahud. Variante fusiforme do câncer de cabeça e pescoço: células claras e alongadas indicam maior agressividade do tumor Reprodução EPTV Realidade brasileira: o fator HPV A pesquisa também apontou uma diferença epidemiológica entre o Brasil e o Hemisfério Norte. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos o vírus HPV está presente em cerca de 70% dos casos de câncer de garganta, no Brasil essa associação é menor, girando em torno de 25%. Essa distinção é importante para as chances de recuperação porque os tumores causados pelo HPV costumam ser mais "sensíveis" ao tratamento, respondendo melhor à rádio e quimioterapia. No cenário brasileiro, onde a maioria dos casos não está ligada ao vírus, o prognóstico tende a ser mais severo, aproximando-se do comportamento do câncer oral clássico, que exige estratégias de combate mais rigorosas. "É bem conhecido na literatura que o câncer associado ao HPV tem melhor prognóstico. Como na população brasileira esses valores são baixos, o prognóstico não acompanha aquele observado nas populações norte-americanas e europeias", explica Jorge Léon, chefe da pesquisa e pesquisador da USP. Fachada do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HC-FMRP-USP), onde parte do estudo foi desenvolvido e pacientes são atendidos Reprodução EPTV Cirurgias e tratamentos sob medida Para os médicos que atuam diretamente no atendimento, como a oncologista Graziela Vieira Cavalcanti, do Hospital das Clínicas (HC) de Ribeirão Preto, as descobertas permitem "personalizar" a luta contra a doença. Segundo a médica, saber exatamente com qual variante se está lidando define, por exemplo, o tamanho da margem de segurança em uma cirurgia. "A diferença nos tipos das variantes interfere no tratamento, principalmente se o paciente vai mudar o protocolo de quimioterapia e radioterapia. Até mesmo na cirurgia, às vezes damos margens um pouco mais amplas para garantir que não haverá reincidiva do tumor. Conseguimos melhorar a morbidade, fazendo um tratamento mais direcionado para o paciente", afirma Graziela. O aposentado Benedito Ferreira sentiu um caroço no céu da boca em 2024 e agiu rápido. Operou no ano passado e, embora lide com sequelas na fala, mantém a rotina de exames a cada três meses com otimismo. A próxima consulta de Benedito tem um significado especial: ele receberá uma prótese que ajudará a recuperar sua capacidade de comunicação. "Graças a Deus. Se Deus quiser, amanhã eu venho fazer a prótese. Mas agradecer a Deus porque eu estou vivo! Estou assim, vivo, agradecendo o Papai do Céu", celebra. Benedito Ferreira faz acompanhamento trimestral após cirurgia de câncer na garganta Reprodução EPTV Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto e região