'Uma mãe amputada', 'É um mundo escuro', 'A vida não anda': mães de vítimas de feminicídio contam como convivem com luto
2026-03-08 - 07:13
Violência contra mulher; vítima; sobrevivência feminina Bruna Bonfim/g1 O tempo passa, as pessoas começam esquecer as histórias dos crimes, mas as mães de vítimas de feminicídio não. O crime não leva apenas a vida das mulheres violentadas, mas marca para sempre as famílias que ficam com a dor do luto, da saudade e da revolta. "Uma mãe que perde um filho é uma mãe amputada. Eu carrego aqui no meu ombro, eu e todas as mães, uma mochila invisível do luto, que é muito pesado. É muita dor, é muita saudade, é muita angústia, muita humilhação, muita tristeza. É uma coisa surreal que não tem nome", diz a professora Valéria Felizardo. 📳 Clique aqui para seguir o canal do g1 RN no WhatsApp Ela é mãe de Márcia Anália Felizardo da Silva, que foi morta a facadas aos 23 anos em abril de 2024. O crime aconteceu na casa onde ela morava no bairro Santa Tereza, em Parnamirim, na Grande Natal. RN registra crescimento de casos de feminicídios Anália foi morta pelo marido, com quem tinha um relacionado de sete anos. Josué Vianna está preso. Ele confessou o crime e foi condenado a 16 anos de detenção. Segundo Valéria, que foi quem encontrou a filha morta, nem mesmo a condenação do réu é capaz de aliviar a dor. "Ele está atualmente condenado a 16 anos, mas a minha filha está condenada à pena de morte. E eu, a mãe de Anália, minha única filha, estou condenada à prisão perpétua sem nunca ter cometido um delito", declara. Nem o passar dos anos alivia a dor. Dezembro de 2026 marcará uma década do feminicídio de Anna Lívia Sales de Macedo, morta a facadas enquanto amamentava o filho de seis meses em São Gonçalo do Amarante, também na região metropolitana de Natal. Mãe de Anna Lívia, a pedagoga Sheila Sales, de 47 anos, compara o luto a uma "caverna" e a uma montanha-russa. Há dias melhores e piores. "A gente é obrigada a aprender a caminhar novamente. A família entra em uma caverna escura. É um mundo escuro. Para mim, ainda parece que foi ontem. Parece que o tempo congelou. Eu fui obrigada a ficar de pé pelo meu neto e meu outro filho, que na época tinha 8 anos e era apegado tanto à irmã como também ao criminoso", conta. Anna Lívia foi morta a facadas em dezembro de 2016 enquanto amamentava o filho Arquivo da família O autor do crime, Felipe Cunha Pinto, foi condenado a 25 anos de prisão, mas já responde em liberdade. A família da vítima tem medidas protetivas. O filho de Anna ainda não conhece a história da família. "A gente é obrigado a conviver com essa sombra, com esse fantasma. Hoje meu neto perdeu a liberdade, porque não pode correr na rua, ou sair com outras pessoas, porque tenho medo do que possa acontecer. E a gente tem medo de como ele vai lidar com essa descoberta. O futuro que eu tanto temia está chegando", conta Sheila. Zaira Cruz Durante quase sete anos, a autônoma Ozanete Dantas acreditou que conseguir a condenação do assassino da sua filha, a estudante universitária Zaira Cruz, de 22 anos, aliviaria a dor. A jovem foi morta durante o carnaval de Caicó em 2019. O policial militar Pedro Inácio Araújo de Maria foi condenado a 20 anos de prisão em dezembro de 2025 e recorre da sentença do tribunal do júri, mas Ozanete ainda sofre a dor do luto. "Eu fico sem entender por que com ela. Porque ela só fazia o bem. A saudade é tão grande, maltrata tanto o coração da gente. O coração fica dilacerado. Sofro dobrado quando também vejo o sofrimento da irmã dela. A vida não anda. Eu achei que depois de tudo (processo) eu ficaria bem, mas tem dias que não tem como não chorar", afirma. Zaira Cruz tinha 22 anos Arquivo Pessoal Número de feminicídios aumenta no início de 2026 Os dois primeiros meses de 2026 tiveram aumento de casos de feminicídio no Rio Grande do Norte. Segundo os dados da Secretaria de Segurança Pública, o estado registrou oito assassinatos de mulheres - cometidos por "razões da condição de sexo feminino" - entre janeiro e fevereiro. O crescimento é de 60% na comparação com o mesmo período de 2025, que teve cinco crimes desse tipo registrados. Em cinco anos, de janeiro de 2021 a dezembro de 2025, o estado registrou 100 feminicídios. Nesse período, somente o primeiro bimestre de 2022 teve mais feminicídios que janeiro e fevereiro de 2026. Foram 8, naquele período. Apesar disso, também em meia década, 2022 foi o ano em que o estado registrou menos feminicídios. Foram 18. Em 2023, o estado registrou 24 crimes do tipo. Em 2024 e 2025, 19 crimes. O que é feminicídio? Veja os vídeos mais assistidos no g1 RN