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Sob bombas, brasileiros deixam casas às pressas e se abrigam em carros e escolas no Líbano

2026-03-28 - 09:20

Brasileiros deixam casas e se abrigam em escolas e carros no Líbano após ataques de Israel “Acordamos de madrugada, por volta de 2h30 ou 3h, com as bombas. Foi muita gritaria no prédio e na cidade toda”. O relato é da brasileira Romilda Salman que, no dia 2 de março, quando Israel atacou o Líbano, deixou com o marido e os filhos a casa onde morava há 25 anos. Romilda é uma das mais de 1,2 milhão de pessoas — cerca de um quinto da população —deslocadas pela guerra entre Israel e Hezbollah, que já matou ao menos mil pessoas no país, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Vinte e dois mil brasileiros moram no Líbano, de acordo com o Itamaraty. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp O que é uma 'zona-tampão', como a que Israel diz que quer expandir no Líbano Antes ou durante os ataques, autoridades emitem ordens de deslocamento para que moradores deixem áreas sob risco de bombardeio. Isso aconteceu em porções significativas do sul do Líbano, partes de Beirute, aldeias fronteiriças e o Vale do Bekaa, segundo a ONU. Nesta semana, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmou que os moradores do sul do Líbano que deixaram suas casas não devem retornar: "Não retornarão ao sul do rio Litani até que a segurança dos moradores do norte de Israel seja garantida”, afirmou. De acordo com a ONU, 472 prédios educacionais estão sendo usados como abrigos coletivos no país. A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) chamou, nesta sexta-feira (27), a situação atual do Líbano de "uma profunda crise humanitária" e alertou para o risco de uma catástrofe na região. O conflito é resultado da guerra no Oriente Médio, que eclodiu no dia 28 de fevereiro. O grupo extremista Hezbollah, aliado do regime iraniano, lançou foguetes contra Israel, que revidou atacando diversas regiões no Líbano e enviando soldados ao sul do país vizinho. O cenário é trágico. Famílias vivendo em situações precárias em barracas, carros e abrigos, sem data para voltar para casa. Ao g1, brasileiras que moram no Líbano compartilham seus relatos. 'Se eu morrer, quero morrer com a minha filha' Mohammad, Housni, Carolina e Romilda. Acervo pessoal Romilda Salman conheceu o marido libanês Housni em Foz do Iguaçu (PR) há quase três décadas. Eles se casaram e tiveram o primeiro filho Mohammad, de 26 anos, no Brasil. Depois, se mudaram para o Líbano, onde nasceu Carolina, de 23. No dia em que Israel atacou o Líbano, a família teve que sair às pressas de seu apartamento em Haret Hreik, subúrbio na região sul de Beirute. Sabendo que não voltariam tão cedo, eles se dividiram para levar a moto e o carro. Mohammad foi dirigindo a moto e Carolina, o carro. Diante do congestionamento, os filhos tentaram convencer a mãe a sair o mais rápido possível da região. “Numa altura do caminho, o meu filho falou: 'Mama, vem comigo porque de moto chegamos mais rápido'”, conta Romilda. “Eu falei: não. Se eu morrer, vou morrer com a minha filha. Ela começou a chorar e gritar, estava desesperada, nervosa, dirigindo. Ela falou: 'Mama, vai, não vamos morrer todos juntos'". “A gente andando e as bombas atrás e as bombas caindo. Sabe filme de terror, filme de guerra?”, descreve. Romilda acabou indo com o filho de moto e chegou em pouco mais de 20 minutos a uma área mais central de Beirute. Já a filha e o marido, de carro, levaram mais de três horas para fazer o mesmo trajeto. Atualmente, a família está abrigada em um apartamento cedido por um libanês que mora fora do país para desalojados pela guerra. O edifício tem seis andares, sendo um apartamento por andar. Segundo Romilda, cada apartamento está ocupado por cerca de três famílias. “Estamos praticamente acampados. Não temos geladeira, não temos fogão. Compramos um fogareiro pequeno e estamos dormindo em colchonetes”, diz. Apesar disso, ela afirma que é grata por terem conseguido um lugar para ficar. “Nós demos sorte. Tem muita gente em barracas nas ruas e morando em carros", conta. "Além disso, não temos como voltar para casa. Agora mesmo, estão bombardeando por lá", diz. Romilda conta que não sabe a situação atual da sua casa, mas recebeu imagens de prédios vizinhos que foram bombardeados. Uma das imagens mostra o quarto das filhas da sua vizinha após o ataque. Veja abaixo. Prédio vizinho de Romilda Acervo pessoal Quarto das filhas da vizinha de Romilda Acervo pessoal 'Estamos dividindo uma sala com outras famílias, são 20 pessoas no total' Lindaura Hijazi tem 52 anos, nasceu em Assis-Chateaubriand (PR) e mora no Líbano desde 1991. Assim como Romilda, ela teve que deixar a casa em Haret Hreik devido aos ataques de Israel. “Estava em casa quando cerca de seis mísseis caíram muito perto. Foi aí que decidi sair. Não sabia se conseguiria fugir — a cada cinco ou dez segundos, uma bomba caía”, conta. Lindaura teve que deixar a casa depois que Israel atacou o Líbano Acervo pessoal Desde então, ela e os filhos, Sadek, de 14 anos, e Amin, de 9, vivem em uma sala de aula de uma faculdade estadual no centro de Beirute, transformada em abrigo pelo governo. "São três andares, cada um com sete salas, e dois banheiros por andar. Estamos dividindo uma sala de aula com outras famílias — são 20 pessoas no total”, diz. Segundo ela, as cadeiras viraram “armários” para guardar os pertences (veja na foto abaixo) e os colchões são guardados durante o dia e estendidos no chão à noite. Lindaura afirma que o governo, mas principalmente organizações sociais, têm fornecido alimentação e itens de higiene aos abrigados. Mas nem toda a família de Lindaura está no abrigo. O seu marido, Bilal Hijazi, dorme no carro, estacionado em uma rua próxima. Lindaura explica que ele se sente mais a vontade assim. "Quando tem homem aqui, as mulheres não podem tirar o lenço. Então, ele fica com vergonha e dorme lá embaixo", diz. Cadeiras na sala de aula que está sendo usada como abrigo em Beirute Acervo pessoal Avanço terrestre Nas últimas semanas, Israel tem aumentado a presença e os ataques no sul do Líbano. A situação aumenta os temores de que uma invasão em larga escala pode estar por vir. Na terça-feira (24), o Ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmou que pretendia assumir o controle de uma área no território libanês de 30 km, da fronteira de Israel até o rio Litani (veja no mapa abaixo). Rio Litani, no sul do Líbano g1/Thalita Ferraz No dia seguinte, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que seu Exército iria expandir a "zona-tampão" no Líbano. Antes, Israel já tinha destruído ao menos cinco pontes na região. ➡️"Zona-tampão" é um termo bélico usado para denominar uma faixa de território usada como área de contenção entre duas frentes de combate. Israel diz que a criação e expansão dessa "zona de segurança" seria para proteger a sua população do Hezbollah. Mas, para uma zona-tampão ser considera legítima, ela precisa ser resultado do acordo entre as partes do conflito, com respeito à soberania, segundo o professor de Relações Internacionais da UFF e pesquisador de Harvard Vitelio Brustolin. "No caso da zona-tampão que Israel quer criar no Líbano, ela seria dentro do território libanês, e precisaria do consentimento do Líbano para ser considera legítima", diz. Brasileiros no Líbano tiveram que deixar suas casas devido à Guerra com Israel Acervo pessoal

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