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Seis vezes em que mercados se movimentaram de maneira suspeita antes de anúncios de Trump

2026-03-27 - 15:00

Decisões de Trump influenciam mercados de maneira decisiva – e algumas apostas antecipadas de investidores têm gerado questionamentos Martin Meissner/AP Photo/picture alliance Cerca de 15 minutos antes de o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciar a suspensão dos ataques à infraestrutura energética do Irã, na última segunda‐feira (23/03), os mercados registraram uma movimentação abrupta nos contratos de petróleo. Nesse intervalo, investidores negociaram centenas de milhões de dólares da commodity, antecipando-se à publicação do republicano e evitando perdas com a posterior queda nos preços. O episódio reacendeu o escrutínio no país por repetir um padrão observado durante sua presidência, em que investidores adotam comportamentos atípicos pouco antes de anúncios oficiais sobre temas como operações militares e tarifas. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 Além dos contratos futuros de petróleo, atividades cronometradas deste tipo também surgiram em outros segmentos financeiros nos últimos meses, incluindo índices de ações (S&P 500 e Nasdaq), mercados de apostas, operações de câmbio e até criptomoedas. Os casos levantaram suspeitas nos Estados Unidos sobre possíveis vazamentos de informação do governo ao mercado, inclusive o brasileiro. A prática irregular, associada ao insider trading, ocorre quando investidores operam com base em informações privilegiadas que deveriam ser confidenciais, negociando de forma a lucrar com a antecipação de um anúncio oficial. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Não há evidências concretas de que a Casa Branca esteja repassando informações confidenciais para beneficiar investidores ou suavizar impactos. Especialistas apontam que o comportamento súbito e as frequentes mudanças de direção de política de Trump acabam fornecendo sinais ao mercado, que interpreta esses padrões e tenta antecipar decisões políticas. No caso do presidente americano, que anuncia decisões oficiais diretamente nas redes sociais e sem aviso prévio, os mercados passaram a monitorar diretamente sua comunicação online – fenômeno apelidado nos EUA de "Volfefe Index". Na prática, suas postagens têm potencial para mover mercados globais e estimular comportamentos preditivos, inclusive em bolsas europeias. Além disso, grandes fundos operam constantemente com base em sinais macroeconômicos, o que pode gerar a percepção de movimentos "perfeitos" antes de anúncios. Por outro lado, a repetição recente dessas "coincidências" vem aumentando as críticas sobre a gestão Trump. A Casa Branca afirma reiteradamente que não tolera qualquer autoridade que se "beneficie ilegalmente de informações privilegiadas". "O que chama atenção aqui não é apenas o tamanho das operações, mas o timing", disse Stephen Innes, analista da SPI Asset Management, à agência de notícias AFP, ao ser questionado sobre a movimentação mais recente. "Traders não são clarividentes. Quando as posições mudam minutos antes de um anúncio capaz de mexer com o mercado, isso geralmente significa que alguém está agindo com [...] informações antes de a notícia vir a público", acrescentou. Relembre os movimentos do mercado que aconteceram minutos antes de anúncios de Trump. Acertos sobre data de ataques ao Irã levaram lucros a apostadores Evelyn Hockstein/REUTERS Negociações de petróleo minutos antes de queda dos preços No último sábado (21/03), Trump havia prometido destruir a infraestrutura energética do Irã se o país não permitisse o tráfego de navios no Estreito de Ormuz em 48 horas. O bloqueio da navegação no Golfo tem gerado forte pressão sobre o governo americano, devido à disparada de preços do petróleo e sua reação em cadeia em outros setores. Teerã, porém, não cedeu à ameaça, o que levou o preço da commodity a subir mais uma vez nas primeiras horas de segunda-feira (23/03), com a abertura das bolsas na Ásia. Às 7:04 daquele dia (horário local), Trump subiu seus primeiros posts indicando que recuaria dos ataques. Segundo ele, houve "conversas produtivas" com Teerã que o levaram a postergar a ofensiva contra as bases energéticas do Irã por cinco dias. Os preços do petróleo bruto Brent caíram de 114 dólares por barril para 97 dólares em poucas horas. No entanto, minutos antes, entre 6:49 e 6:51 do mesmo dia, mais de 760 milhões de dólares (R$ 4 bilhões) em contratos futuros de petróleo foram negociados, incluindo o Brent e o West Texas Intermediate. O jornal americano Wall Street Journal também indica que um movimento similar ocorreu no índice de ações americano S&P 500, o que levou investidores a contornarem perdas. Na comparação com semanas anteriores, o movimento pode ser considerado atípico para uma segunda-feira, indicam observadores. Além disso, não havia sinais claros de que uma negociação entre Washington e Teerã poderia sair do papel. O Irã chegou a rebater Trump horas depois e afirmar que nenhuma conversa sobre o estreito havia ocorrido durante o final de semana. Apostadores lucram com timing dos ataques no Irã A especulação sobre uso de informação privilegiada também se espalhou para os mercados de previsão, que permitem aos usuários apostar na probabilidade de milhares de eventos globais. A empresa de análise Bubblemaps afirmou que seis contas lucraram cerca de 1,2 milhão de dólares (R$ 6 milhões) com dezenas de apostas feitas na plataforma Polymarket, prevendo corretamente ações militares dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã em 28 de fevereiro. As apostas foram registradas horas antes de os ataques começarem. Além de informações privilegiadas, críticos apontam risco de apostas incentivarem conflitos Berno/SIPA/picture alliance Segundo a Bubblemaps, um único apostador apresenta um padrão recorrente de apostas certeiras. Ele também lucrou em outubro de 2024, quando acertou a data dos ataques israelenses contra o Irã, com aposta realizada novamente poucas horas antes de seu início. Uma revisão do site da Polymarket feita pela agência de notícias Reuters identificou que, ao todo, um total 529 milhões de dólares foram apostados em contratos ligados ao timing de ataques (R$ 2,7 bilhões), enquanto 150 milhões de dólares (R$ 790) foram direcionados a contratos sobre a possível remoção do antigo líder supremo aiatolá Ali Khamenei de seu cargo. Remoção de Nicolás Maduro remunera apostadores Senadores democratas também manifestaram preocupação, em 23 de fevereiro, de que os mercados de previsão estariam violando regras ao criar incentivos para fomentar conflitos ou divulgar informações sigilosas, depois que um trader obteve cerca de 410 mil dólares (R$ 2,1 milhões) apostando na queda do líder venezuelano Nicolás Maduro. Em 2 de janeiro, Trump autorizou a ação que levou à captura de Maduro, em Caracas. Embora a notícia da operação só tenha sido divulgada posteriormente, uma série de apostas na queda do venezuelano foram feitas na Polymarket entre dezembro e janeiro. O que gerou suspeita foi a identificação de que a última aposta fora registrada menos de uma hora antes de os militares serem autorizados pela Casa Branca a prosseguir com a intervenção na Venezuela. Prisão de Maduro também motivou movimentações nos mercados Adam Gray/REUTERS Recuo tarifário dispara índices de mercado A guerra comercial lançada por Trump contra diversos países também gerou especulações de insider trading e manipulação de mercado. Entre os dias 9 e 14 de abril de 2025, Trump anunciou diversos recuos ao seu tarifaço global, reduzindo restrições à importação de produtos eletrônicos ou mesmo pausando o tarifaço horas após sua entrada em vigor. As decisões reverteram temporariamente quedas históricas nas bolsas de valores ao redor do mundo disparadas por sua decisão anterior de sobretaxar parceiros comerciais com tarifas que chegavam a 50%. Em 9 de abril de 2025, a sobretaxa a países e blocos como China, Japão e União Europeia entrou em vigor, levando a um choque nos mercados. Trump procurou amenizar o impacto, afirmando nas redes sociais que era uma "ótima hora para comprar". Horas depois, interrompeu as tarifas globais por 90 dias, o que levou o índice americano S&P 500 ao seu maior ganho diário desde 2008 e o Nasdaq ao segundo melhor desempenho em quase duas décadas. Em meio às movimentações, observadores identificaram negociações na bolsa americana que envolviam opções de compra que só dariam retorno se o índice encerrasse em alta no mesmo dia, algo não esperado em meio às tarifas recém-impostas. Foi o suficiente para democratas no Congresso pedirem repetidas investigações sobre possível manipulação de mercado e insider trading. Bilhões em criptomoedas minutos antes de anúncio Em 10 de outubro de 2025, foi a vez de movimentações atípicas no mercado de criptomoedas levarem a especulações sobre informações privilegiadas. Na ocasião, Trump anunciou tarifas adicionais de 100% aos produtos chineses, levando a uma liquidação generalizada no mercado de criptomoedas, como o bitcoin, que chegou a cair 19 bilhões de dólares (R$ 100 bilhões). Recuo do tarifaço gerou revolta nas bolsas Brendan Smialowski/AFP Segundo análise do Wall Street Journal, porém, duas contas haviam apostado contra o mercado minutos antes da publicação do presidente, lucrando cerca de 160 milhões de dólares (R$ 842 milhões). As apostas foram alavancadas para lucrar com um possível derretimento no preço das criptomoedas e foram executadas na plataforma Hyperliquid. Apesar de o investimento ter sido realizado minutos antes do anúncio, naquele momento Pequim já havia restringido sua exportação de terras raras, o que levou à contramedida de Trump. Aposta cambial bilionária no Brasil No Brasil, anúncios de Trump também geraram suspeitas de que informações privilegiadas chegaram ao mercado. A Advocacia‐Geral da União identificou movimentações cambiais atípicas em 9 de julho de 2025, quando o americano afirmou que aplicaria uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. Uma reportagem do G1 mostrou que menos de 3 horas antes de Trump publicar uma carta em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e sobretaxar o Brasil, operadores compraram entre 3 e 4 bilhões de dólares (entre R$ 15 e R$ 21 bilhões) ao custo de R$ 5,46 o dólar. Após a publicação da Casa Branca, o câmbio subiu a R$ 5,60. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, determinou a abertura de uma investigação sobre o caso. gq (OTS, AFP) Entenda impacto da alta do petróleo com a guerra no oriente médio

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