Rotina de Bolsonaro na cadeia tem 144 atendimentos médicos em 39 dias, 7 horas de sono diárias e programas esportivos, aponta relatório
2026-03-02 - 19:53
A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de indeferir o pedido de prisão domiciliar humanitária de Jair Bolsonaro (PL) apresenta detalhes de relatórios técnicos sobre a rotina do ex-presidente preso no 19o Batalhão da Polícia Militar, conhecido como Papudinha, e trechos do relatório da perícia médica para sustentar a decisão de negar o pedido. Moraes considerou que Bolsonaro tem atendimento adequado no local. O documento aponta que, em um período de 39 dias de análise (entre 15 de janeiro e meados de fevereiro de 2026), Bolsonaro teve atendimento médico em 144 ocasiões diferentes (média de quase quatro por dia), mantém sete horas de sono diárias, assiste a programas esportivos e realiza caminhada, sob escolta, de cerca de 1 km no final da tarde. De acordo com o laudo da perícia médica da Polícia Federal, que foi solicitado por Moraes, Bolsonaro: relatou dormir por volta das 22h e acordar às 5h, embora costume levantar-se apenas às 8h. Sua manhã inclui café da manhã, higiene pessoal e dedicação à leitura de livros. disse que faz um repouso de cerca de 20 minutos após o almoço. costuma assistir a programas esportivos na televisão e conversar com o policial responsável pela guarda de seu alojamento no período da tarde. realiza caminhadas de aproximadamente 1 km na área comum do batalhão ao final do dia, atividade que geralmente dura uma hora e é feita sob escolta. O relatório contabilizou 33 caminhadas no período analisado. O batalhão dispõe de um médico da Secretaria de Saúde do Distrito Federal e uma Unidade de Saúde Avançada do SAMU, com enfermeiro, em sistema de rodízio 24 horas para acompanhar o ex-presidente, o que justifica a quantidade de atendimentos médicos no período analisado. A perícia médica atestou que as comorbidades de Bolsonaro, como hipertensão, apneia do sono grave e aderências abdominais, estão sob controle clínico e medicamentoso, não exigindo transferência para ambiente hospitalar. Além do suporte oficial, Bolsonaro recebe visitas semanais de um fisioterapeuta particular para sessões de acupuntura e alongamento, e o acompanhamento de seu médico particular, Dr. Brasil Caiado. Foram 13 sessões contabilizadas no período da análise. Alimentação O laudo pericial da Polícia Federal traz observações específicas sobre a alimentação de Bolsonaro, destacando que seus hábitos alimentares não estão adequados às suas condições de saúde. O documento detalha que há um baixo consumo de alimentos naturais, sendo a dieta descrita como pobre em frutas, verduras e hortaliças. Os peritos registraram um excesso de ultraprocessados e açúcares, com consumo frequente de itens como biscoitos e bolos. O relatório aponta falta de controle dietético e ponderal (de peso) necessários para o tratamento de suas comorbidades, como o refluxo gastroesofágico, destacando que não há medicamento prescrito para o tratamento de obesidade. Apesar dessas escolhas alimentares pessoais, a perícia médica e a decisão judicial confirmam que o ambiente carcerário do 19o Batalhão da Polícia Militar tem total capacidade para garantir uma dieta fracionada e todas as medidas assistenciais adequadas. O laudo menciona o funcionamento intestinal do ex-presidente: segundo o documento, Bolsonaro relatou aos peritos ter um hábito intestinal de três a quatro vezes por semana. Cuidados com sono, refluxo e prevenção solar O laudo aponta que o ex-presidente relatou roncos e despertares frequentes, mas apresentou uma melhora de cerca de 80% na qualidade do sono após iniciar o uso de um aparelho CPAP (pressão positiva contínua nas vias aéreas) em meados de fevereiro. Os peritos recomendaram o acompanhamento contínuo com um especialista em medicina do sono para monitorar o tratamento da Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS). Quanto ao refluxo gastroesofágico, embora o ex-presidente faça uso de medicação contínua e mantenha a cabeceira da cama elevada, os médicos apontaram falhas em medidas comportamentais. O relatório destaca que o hábito de repousar logo após o almoço e a falta de controle de peso prejudicam a eficácia do tratamento gástrico. Além disso, devido às caminhadas diárias ao ar livre, foi prescrita uma rotina rigorosa de prevenção ao câncer de pele, incluindo o uso de filtro solar (fator 30 ou superior), roupas com proteção UV, chapéu e óculos escuros, evitando a exposição ao sol entre 10h e 16h. Visitas e atividade política A decisão de Moraes destaca que a "intensa atividade política" de Bolsonaro na prisão corrobora sua boa condição de saúde mental. No período analisado, foram 36 visitas de pessoas que não são da família de Bolsonaro Além de visitas permanentes da esposa, Michelle, e dos filhos, o ex-presidente recebeu 36 visitas de terceiros solicitadas pela defesa. Entre os visitantes registrados estão o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), além de uma comitiva de senadores e deputados aliados, como Rogério Marinho (PL-RN), Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Nikolas Ferreira (PL-MG) e Helio Lopes (PL-RJ). Bolsonaro também teve assistência religiosa em quatro ocasiões e reuniões com advogados em 29 dias do período analisado. Negativa da prisão domiciliar Ao negar o pedido de prisão domiciliar, o ministro Alexandre de Moraes ressaltou que o ambiente prisional atende integralmente às necessidades do condenado e respeita a dignidade da pessoa humana. O magistrado também citou como fator impeditivo a tentativa de fuga e a violação da tornozeleira eletrônica ocorrida em novembro de 2025, antes do trânsito em julgado da condenação. Bolsonaro cumpre pena de 27 anos e 3 meses de reclusão em regime inicial fechado, conforme fixado pelo STF. PGR se manifesta contra prisão domiciliar para Bolsonaro