Ressentimento masculino e misoginia alimentam alta de feminicídios em Pernambuco; entenda
2026-03-28 - 03:10
Socióloga avalia o aumento de casos de feminicídio No Recife, Isabel Cristina, de 22 anos, foi assassinada dentro do seu apartamento pelo ex-companheiro que queria reatar o namoro – ele se matou em seguida. Em Goiana, na Zona da Mata, Andreza dos Anjos, de 27 anos, foi morta a facadas pelo marido ciumento após um relacionamento de 12 anos. Os dois feminicídios não estão conectados, mas aconteceram com menos de 24 horas, em março deste ano, Mês da Mulher. A crescente de casos como esses escancara uma ferida social que continua inflamada: o ódio contra as mulheres. ✅ Receba as notícias do g1 PE no WhatsApp Em Pernambuco, o número de feminicídios cresceu em 15% no ano de 2025, segundo levantamento da Gerência Geral de Análise Criminal e Estatística da Secretaria de Defesa Social. Foram 88 mulheres mortas em crimes relacionados à sua condição de gênero, o maior quantitativo de vítimas dos últimos oito anos. Em 2026, somente nos meses de janeiro e fevereiro, 18 mulheres foram vítimas de feminicídio, número também registrado no mesmo período de 2025. Dados da SDS também apontam um cenário alarmante com relação aos casos de violência doméstica: o estado teve média diária de 137 registros nos dois primeiros meses de 2026. A socióloga Liana Lewis, professora do departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), avalia que o feminicídio é resultado do comportamento de homens que não aceitam as mulheres questionando o lugar imposto a elas na sociedade (veja vídeo acima). "O que tem levado ao aumento do feminicídio é o que a gente tem chamado de 'ressentimento'. A gente observa um reposicionamento da mulher na sociedade. [...] Esse ódio, essa tentativa de aniquilar a mulher, é uma resposta a um movimento positivo de reposicionamento. É o homem percebendo que a mulher não aceita mais esse lugar de submissão", disse. O ódio contra as mulheres tem nome: misoginia. O termo não é sinônimo de machismo, que é a forma como a sociedade foi estruturada para priorizar homens. A misoginia é uma derivação, muito mais perigosa e letal, do machismo. "O machismo vai ser a forma como a sociedade se estrutura de maneira a hierarquizar, a colocar o homem como superior a mulher [...] A misoginia é o ódio a mulher, é um aprofundamento do machismo, é o desprezo pela mulher. A misoginia é muito mais violenta", explica Liana Lewis. Na terça-feria (24), o Senado aprovou projeto de lei que equipara a misoginia ao racismo e prevê penas maiores para crimes de ódio contra mulheres. O projeto, que muda a Lei do Racismo e inclui a misoginia entre os crimes de discriminação ou preconceito, segue para análise da Câmara dos Deputados. O combate à misoginia e, consequentemente, ao feminicídio, exige um esforço coletivo, com participação da sociedade e do governo. Para a socióloga, uma das saídas é a educação dos homens, que deve começar desde cedo. "Muitas vezes a própria família vai ser o seio dessa violência. O que é importante, e já tem toda uma medida do governo federal, é trabalhar nas escolas. Porque nas escolas a gente universaliza, não fica à mercer da cultura particular de cada família", aponta. Dados alarmantes Nem todo caso de violência doméstica termina em feminicídio. Muitas vezes, as vítimas encontram nas medidas protetivas uma ferramenta de se afastar dos agressores. Alguns casos recentes de feminicídio que aconteceram no estado ganharam grande repercussão. Para a delegada Larissa Souza, adjunta da 1a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, a visibilidade dos casos estimula que mulheres denunciem o descumprimento de medidas protetivas. "A gente já notou, diante do que vem sendo veiculado em relação aos feminicídios, uma preocupação maior para registro de descumprimentos de medida protetiva. O que é muito importante, porque a gente precisa saber sobre esses descumprimentos. E aí a polícia pode agir fazendo um flagrante, se for possível, ou representando pela prisão do agressor", disse a delegada em entrevista ao g1. As mulheres agredidas podem fazer a denúncia e solicitar uma medida protetiva de urgência. A proteção costuma ser concedida em até 24 horas para os casos que se enquadram na Lei Maria da Penha (entenda mais abaixo). Todavia, um levantamento feito pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE) mostrou que 99% dos municípios pernambucanos não possuem protocolo de atendimento e encaminhamento para mulheres vítimas de violência. A pesquisa analisou a estrutura da rede de proteção nos 184 municípios e no distrito de Fernando de Noronha. Foi indicado que há falta de articulação entre os órgãos responsáveis, além de insuficiência de serviços voltados à proteção das vítimas. LEIA TAMBÉM: Renata, Mirella e Maristela: quem eram vítimas de feminicídio Saiba que alterações acontecem no cérebro de agressores de mulheres Para além das mortes violentas, as tentativas de feminicídio também acenderam o alerta para a vulnerabilidade das mulheres, que acabam sendo vítimas de pessoas do seu ciclo social, como maridos e namorados. Em março deste ano, a empresária Viviane Brasileiro, de 39 anos, teve o prédio invadido pelo ex-companheiro que não aceitava o fim do relaciomanento. André Maia Oliveira, de 47 anos, derrubou o portão do estaciomento com seu carro e subiu até o apartamento da vítima. Com um galão de gasolina na mão, o criminoso deu cerca de 20 tiros na porta do imóvel e ameaçou tocar fogo no local. Depois, ligou para a vítima e ameaçou matar a ela e à mãe dela. Ele conseguiu fugir, mas se entregou à polícia no dia seguinte, quando foi preso. A prisão preventiva foi feita pois Viviane já tinha uma medida protetiva contra o ex-companheiro. Isso impedia que André Maia se aproximasse da vítima ou entrasse em contato com ela. Por ele ter infringido, foi preso e autuado por tentativa de feminicídio. Vídeo mostra homem procurado por tentativa de feminicídio com galão de gasolina e com arma Reprodução/WhatsApp Medidas protetivas Em Pernambuco, 16.657 pedidos de medidas protetivas foram feitos em 2025. Já nos dois primeiros meses de 2026, foram 4.051. O número de solicitações não é igual ao das medidas concedidas, pois cada caso é avaliado pela Justiça. O serviço pode ser solicitado diretamente no Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) ou através das delegacias de polícia, quando a mulher registra um boletim de ocorrência. Quando entra em vigor, muitas vezes em caráter de urgência, a medida protetiva impõe limites ao agressor. Entre eles estão o afastamento, a proibição de contato e o uso de tornozeleira eletrônica pelo agressor. Por meio do Centro de Monitoramento de Pessoas (Cemep), as equipes de segurança acompanham em tempo real os infratores que usam o dispositivo que mostra a localização no mapa. A vítima também pode ser notificada por SMS caso o agressor se aproxime. Botão de pânico O monitoramento do agressor rastreado por tornozeleira pode ser impulsionado pelo uso do botão de pânico pela vítima. A unidade portátil de rastreamento fica em posse da mulher, que pode acionar o botão caso o agressor se aproxime e a ameace. Com isso, a polícia consegue localizar o criminoso rastreado pelo monitoramento eletrônico. Porém, a maioria das vítimas não opta pelo botão de pânico. Segundo a advogada Fabiana Leite, a proteção fica incompleta sem o uso dos dois dispositivos. "Muitos homens estão com tornozeleiras eletrônicas, e muitas mulheres não estão com o botão de pânico. Para mim, é um contrassenso. Acredito que deveria existir, de imediato, a concessão da medida protetiva com a tornozeleira eletrônica, e, para o outro lado, essa mulher estar sendo também monitorada com esse botão de pânico", afirmou a advogada. 'Botão de pânico' é usado por mulheres de violência doméstica Reprodução/TV Globo Abrigamento das vítimas As mulheres em situação de vulnerabilidade, quando moram na mesma casa do agressor ou em um endereço que ele tenha acesso, também podem escolher ser acolhida por abrigos. Pernambuco conta com quatro casas-abrigo, que recebem mulheres sob ameaça de morte. Nos abrigos, essas mulheres recebem alimentação, terapia e orientação jurídica. O acolhimento também é pensado para as crianças – filhos e filhas que acompanham suas mães na fuga da violência doméstica. As mulheres sobreviventes da violência doméstica carregam traços do trauma, que afetam seu comportamento e a forma como elas se relacionam na sociedade. O g1 solicitou à Secretaria de Defesa Social o número de mulheres que solicitaram abrigamento em 2025 e 2026, mas os dados não foram fornecidos até a última atualização desta reportagem. A SDS também foi questionada sobre o aumento no número de feminicídios e medidas desenvolvidas para combater esse tipo de crime em Pernambuco, mas o órgão não respondeu. Mudanças neurológicas Neurocientista Diana Lemos explica alterações cerebrais em vítimas de violência A neurocientista Diana Lemos, em entrevista para a série "Marcas", uma iniciativa da TV Globo, afirmou que experienciar a violência doméstica pode provocar mudanças neurológicas nas vítimas (veja vídeo acima). "A experiência da violência, principalmente quando a gente fala da doméstica, é uma experiência socioafetiva que impacta muito os processos neurais", disse a neurocientista. Esse órgão, que regula nosso corpo, tem como base da sua funcionalidade a constituição das relações sociais, para garantir uma vida social segura. Assim, o cérebro associa essas relações com a sobrevivência. "Se os vínculos afetivos são o que garante nossa vida social, nossa segurança, então, se é naquele ambiente que acontece justamente a maior hostilidade, é muito confuso para o cérebro lidar com isso, então ele resgata circuitos neurais muito intensos para lidar com esse contexto. São áreas cerebrais responsáveis realmente pelo mecanismo de luta ou fuga", explicou a pesquisadora. Além disso, estudos científicos mostram uma mudança no funcionamento do cérebro das vítimas de violência. Quando comparado ao cérebro de outras pacientes, o de mulheres violentadas apresenta alterações no processamento de algumas áreas. No cérebro de uma mulher que passou por violência, a área Broca, que é responsável pela fala e articulação de palavras, funciona abaixo da média. "O que se explica, por muitas vezes, a dificuldade dessa mulher de elaborar, de narrar [...]. O evento traumático não consegue ser constituído na forma de palavras", aponta a neurocientista. Atendimento para mulheres vítimas de violência No Recife, mulheres vítimas de violência podem receber acolhimento, atendimento multidisciplinar e orientações de profissionais especializados nos seguintes locais: Centro de Referência Clarice Lispector: Rua Doutor Silva Ferreira, 122, Santo Amaro (atendimento 24 horas); Serviço Especializado e Regionalizado (SER) Clarice Lispector: Avenida Recife, 700, Areias (atendimento de segunda a domingo, das 7h às 19h); Salas da Mulher em cinco unidades do Compaz — Eduardo Campos (Alto Santa Terezinha), Ariano Suassuna (Cordeiro), Dom Hélder Câmara (Coque) e Paulo Freire (Ibura). Além disso, existe um Plantão WhatsApp, com funcionamento 24 horas, no número (81) 99488-6138. Saiba como denunciar Em Pernambuco, as denúncias de violência contra mulher podem ser feitas através do telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, inclusive aos finais de semana e feriados; A Polícia Militar pode ser contatada pelo 190, quando o crime estiver acontecendo; Também é possível, no Grande Recife, fazer denúncias pelo Disque-Denúncia da Polícia Civil, no número (81) 3421-9595; O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) também pode ser acionado de segunda a sexta-feira, das 12h às 18h, através de uma ligação gratuita para o número 0800.281.9455; Outra opção é a Ouvidoria da Mulher de Pernambuco, que funciona pelo telefone 0800.281.8187; Os endereços e telefones das Delegacias da Mulher podem ser consultados no site do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE). VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias