Pai que acionou PM em escola por causa de desenhos de matriz africana é indiciado por intolerância religiosa
2026-03-05 - 14:23
PMs vão à escola em SP com metralhadora após pai reclamar de desenhos de matriz africana A Polícia Civil indiciou por intolerância religiosa o pai de uma aluna que acionou a Polícia Militar para a Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Antônio Bento, na Zona Oeste de São Paulo, após a filha ter feito um desenho sobre Iansã. O caso ocorreu em 11 de novembro. 🔎 Iansã é uma divindade de religiões de matriz africana, como o Candomblé e Umbanda. É a orixá guerreira dos ventos, raios e tempestades. Na época dos fatos, 12 policiais armados, um deles com metralhadora, circularam pela escola após a denúncia feita pelo pai da aluna — que também é um policial militar da ativa. Segundo ele, a escola estaria obrigando a criança a ter “aula de religião africana”. Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), o inquérito policial sobre o pai instaurado pelo 34° Distrito Policial da Vila Sônia foi concluído em fevereiro e enviado à Justiça. A reportagem não localizou a defesa dele. Já a atuação dos policiais que entraram armados na escola infantil segue sob investigação por meio de um Inquérito Policial Militar. As imagens das câmeras corporais estão sendo analisadas e depoimentos dos envolvidos colhidos, de acordo com a pasta. Veja desenhos ligados à cultura africana que foram alvos de PMs armados em escola infantil EMEI Antônio Bento, na Zona Oeste de SP Reprodução/Google Street View Relato de funcionária Segundo uma funcionária da escola, que preferiu não se identificar, a ação dos 12 policiais provocou constrangimento e medo entre funcionários e familiares de alunos. Ela ainda disse que foi coagida e interpelada pelos agentes por aproximadamente 20 minutos. A profissional afirma ter explicado aos policiais que a escola trabalha com o “currículo antirracista, documento oficial da rede”, e que apresenta às crianças elementos da cultura afro-brasileira. "Quem assediou foi o próprio comandante de área da PM, lamentavelmente. O fato causou muita indignação em toda a região. O pai da aluna rasgou todos os desenhos que estavam no mural da escola, feitos pelos próprios alunos", destacou a jornalista Ana Aragão, que representa a Rede Butantã, que congrega instituições e entidades da região. Ana participou da elaboração de um abaixo-assinado em defesa da escola e dos profissionais da Emei Antônio Bento. No documento, moradores manifestam “integral e irrestrito apoio” ao corpo docente e funcionários e expressam “profunda preocupação e indignação” com o ocorrido. A denúncia aponta que os agentes teriam orientado a comunidade escolar “de forma errônea e racista” ao classificar o trabalho pedagógico como inadequado. No texto, os moradores afirmam que a escola cumpre seu papel de promover diversidade cultural e formação cidadã. “Repudiamos veementemente qualquer forma de intolerância religiosa, racismo ou discriminação, e defendemos o direito de todas as crianças a uma educação plural, inclusiva e livre de preconceitos", diz documento.