O que falta para Campo Grande se tornar uma cidade multimodal? Desafios e soluções para a mobilidade urbana; veja vídeo
2026-03-06 - 09:13
Campo Grande pode se tornar uma cidade multimodal? Campo Grande enfrenta desafios para avançar na mobilidade urbana e acompanhar o modelo de cidades multimodais. O conceito prevê a integração de diferentes meios de transporte, como caminhada, bicicleta, ônibus, metrô e carros, para facilitar o deslocamento das pessoas e reduzir a dependência do veículo particular. Especialistas ouvidos pelo g1 apontam que, apesar de alguns avanços, a capital ainda precisa investir em infraestrutura, planejamento e educação no trânsito. Veja o vídeo acima. Esta é a sexta reportagem da série especial do g1 sobre mobilidade urbana. A série mostra como decisões de planejamento urbano e transporte impactam, diariamente, a rotina de quem vive na cidade. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Em cidades consideradas referência, como Amsterdã, Tóquio e Barcelona, diferentes meios de transporte funcionam de forma integrada. O morador pode sair de casa a pé, usar bicicleta, pegar um trem ou ônibus e completar o trajeto com transporte público ou compartilhado. LEIA TAMBÉM Transporte público na mira da Justiça: falhas no serviço e pressão por mudanças Rotas alternativas: o que são, como surgem e como escolher a melhor em Campo Grande Ônibus bate durante reportagem e expõe caos no transporte público de Campo Grande; veja vídeo Vídeo: quer ser um bom condutor? Veja como conquistar o selo e garantir desconto na CNH em MS Quiz: você sabe qual o perfil de quem dirige e pilota por MS? O que é uma cidade multimodal? Uma cidade multimodal é planejada para permitir que as pessoas utilizem vários meios de transporte de forma conectada e eficiente. Na prática, o sistema integra diferentes formas de deslocamento, como: caminhada em calçadas seguras ciclovias e bicicletas compartilhadas ônibus metrô ou trem urbano carros e aplicativos de transporte Assim, o morador pode combinar diferentes opções no mesmo trajeto. Por exemplo: sair de casa a pé, pedalar até uma estação de transporte público e finalizar o percurso de ônibus. O objetivo desse modelo é reduzir congestionamentos, diminuir a poluição, ampliar as opções de deslocamento e melhorar a qualidade de vida nas cidades. Infraestrutura e planejamento Vista da cidade de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul Silas Ismael Para especialistas, Campo Grande ainda tem limitações estruturais para alcançar esse modelo. O especialista em infraestrutura de transporte Marcos do Nascimento Rachid explica que alguns pontos da cidade já apresentam retenção no trânsito e precisam de intervenções planejadas para o futuro. Segundo ele, essas soluções devem ser pensadas a longo prazo. “Nesses pontos de retenção, nós devemos agir não só de uma forma pontual ou instantânea, pensando apenas em curto prazo. Devemos pensar em médio e longo prazo.” Rachid cita locais da cidade que, na avaliação dele, já deveriam ter recebido obras mais complexas, como viadutos. “De imediato a gente pode lembrar da rotatória ali da fábrica de refrigerantes perto da UFMS. Outra na Mato Grosso com a Via Parque. São pontos que já deveriam ter viadutos.” Ele explica que essas estruturas ajudam a reduzir acidentes e melhorar o fluxo de veículos. “O viaduto evita muitos acidentes e também evita pontos de retenção. Quando planejamos uma obra dessa, pensamos nas próximas décadas.” Além disso, o especialista ressalta que intervenções em infraestrutura vão além da construção de viadutos. “Quando fazemos esse tipo de intervenção, também trabalhamos drenagem, paisagismo e urbanismo do local.” Dependência do carro Outro desafio apontado pelos especialistas é a forte dependência do transporte individual. Segundo Rachid, a falta de sistemas de transporte coletivo de maior capacidade limita as opções de deslocamento. “Campo Grande carece de sistema de trens urbanos, metrô, VLT e vários outros meios de transporte coletivo que infelizmente nós não temos.” Ele afirma que o ônibus é importante, mas sozinho não consegue atender toda a demanda de uma cidade em crescimento. “Transporte coletivo apenas com ônibus é insuficiente. Nós precisamos de outras alternativas.” Crescimento da cidade e trânsito Terminal de ônibus em Campo Grande Divulgação O especialista em trânsito Fernando Ernst afirma que o crescimento da cidade exige planejamento constante para evitar problemas maiores no futuro. “O trânsito adoece uma cidade, adoece as pessoas. Então, se realmente aquele ponto a cidade está necessitando de um viaduto ou de reformas, o gestor público precisa olhar com mais carinho.” Segundo ele, investimentos em infraestrutura podem reduzir acidentes, estresse e até a pressão sobre o sistema de saúde. “Investindo em obras e infraestrutura, reduz o nível de estresse, o número de acidentes e até o deslocamento de ambulâncias.” Ernst destaca que o planejamento precisa considerar o crescimento populacional e o aumento da frota. “Eu preciso fazer essa obra pensando não numa solução de agora, mas numa solução daqui a 20 ou 30 anos, porque a cidade não vai parar de crescer.” Mais espaço para bicicletas Campo Grande possui ciclovias em diversos pontos da cidade Graziela Rezende/G1 MS A ampliação de ciclovias também é considerada um passo importante para melhorar a mobilidade urbana. Segundo Ernst, o uso da bicicleta é uma tendência mundial e pode ajudar a reduzir o número de veículos nas ruas. “Hoje a gente analisa o trânsito com um olhar mais humano. Passa a olhar mais o deslocamento da pessoa e não apenas do veículo.” Ele ressalta, no entanto, que as ciclovias precisam ser conectadas e seguras. “A cidade precisa construir um sistema que ligue todos os pontos da cidade.” Realidade de quem vive o trânsito Quem trabalha diariamente nas ruas sente os desafios da mobilidade urbana. O motoentregador Éder da Silva Farias, que atua há cinco anos na profissão, diz que o fluxo intenso e as condições das vias aumentam os riscos. “Quanto maior a avenida, maior o fluxo. Todo mundo escolhe a via rápida para andar e inclusive é onde tem mais acidentes.” Ele conta que sofreu um acidente recentemente enquanto trabalhava. “Eu desviei de um buraco, a senhora não deu seta e entrou na minha frente. Acabei colidindo.” Farias teve fraturas e precisou se afastar do trabalho. “Tive uma fratura no pé esquerdo e na mão direita. Ainda não dobro completamente a mão.” Para ele, melhorias na infraestrutura podem aumentar a segurança, principalmente para motociclistas. “Campo Grande ainda não tem faixa azul para motociclistas nas vias de alto fluxo. É o que está faltando.” Educação no trânsito Além de obras e planejamento, especialistas destacam que a mobilidade urbana também depende do comportamento dos motoristas. Fernando Ernst afirma que a educação no trânsito deve ser contínua. “Todos fazem parte do trânsito e o veículo maior cuida do veículo menor.” Ele defende ações permanentes de conscientização para reduzir acidentes. “Precisamos investir no modelo de cidade educadora, com ações contínuas de conscientização.” Planejamento para o futuro Para os especialistas, Campo Grande ainda tem a oportunidade de crescer de forma planejada e evitar problemas maiores de mobilidade no futuro. Rachid destaca que decisões tomadas hoje podem impactar a cidade por décadas. “Infraestrutura transcende governos. Não se resolve em quatro anos. Precisamos pensar nas próximas décadas.” Ele afirma que, com planejamento e investimento, a capital pode avançar na mobilidade urbana e oferecer mais opções de deslocamento para a população. 📌 Série especial do g1 Acompanhe a série e entenda como decisões de planejamento urbano, mobilidade e transporte público impactam, todos os dias, o caminho que você faz pela cidade. Veja vídeos de Mato Grosso do Sul: