'O dinheiro aumenta, mas não dá para comprar nada': por que o brasileiro não sente a melhora da economia?
2026-03-03 - 12:13
PIB cresce, mas brasileiro ainda aperta o cinto O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil fechou 2025 em alta, no quinto ano consecutivo de crescimento. Ainda assim, para muitos brasileiros, a sensação foi de que o dinheiro continuou curto no final do mês. A diretora de escola Cibelle conta que, embora a renda familiar tenha permanecido estável no ano passado, foi preciso controlar cada gasto para não comprometer o orçamento. “As contas ficaram mais pesadas, principalmente no supermercado.” 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 Para equilibrar as contas, ela reduziu as idas a restaurantes e os gastos com lazer, diminuiu o uso do cartão de crédito e recorreu a reservas antigas. “Eu usei o que tinha guardado, um dinheiro que juntei em 2020. Acabei usando grande parte para o consumo do dia a dia”, conta. A aposentada Maria Madalena diz que também precisou fazer escolhas. Trocou a carne bovina por frango, passou a comprar queijos e laticínios mais baratos e usou parcelamento no cartão para fazer a renda durar até o fim do mês. Sua descrição não poderia ser mais direta: a sensação constante é de perda de poder de compra. “A questão é a desvalorização. O dinheiro aumenta, mas não dá para comprar nada.” Especialistas ouvidos pelo g1 contam que, embora a economia brasileira tenha começado o ano em ritmo mais forte, acabou perdendo fôlego ao longo dos meses e terminou o quarto trimestre praticamente estagnada. Os números divulgados nesta terça-feira (3) pelo IBGE mostram que o principal sinal dessa desaceleração se mostra no consumo das famílias. Esse é o componente que mais pesa no PIB e representa mais de 60% da atividade econômica pelo lado da demanda. O consumo das famílias não chegou a cair, mas cresceu em ritmo bem menor do que no ano anterior, quando havia avançado 5,1%. Para a economista Juliana Trece, coordenadora do Núcleo de Contas Nacionais do FGV Ibre, o dado mostra um descompasso entre renda e gastos. Além da atividade econômica ainda em crescimento, o país registrou a menor taxa de desemprego da história em 2025, de apenas 5,6% na média anual. O rendimento real também foi recorde, de R$ 3.560. O diagnóstico é que a economia continuou avançando, mas em ritmo mais lento. E as compras passaram a depender quase exclusivamente da renda do trabalho. “Em anos anteriores, houve liberações de recursos extraordinários, como saques do FGTS,, que ajudaram a estimular as compras. Quase não tivemos esse tipo de impulso em 2025.” Nesse cenário, a inflação se tornou um desafio ainda maior para os brasileiros. Para a economista Silvia Matos, coordenadora do boletim Macro do FGV Ibre, a alta de preços foi menor no ano passado, mas continuou a corroer o poder de compra e limitou o consumo, especialmente entre as famílias de menor renda. “Depois de um crescimento acima da nossa capacidade em 2024, já era esperado um período de desaceleração. Foram resultados muito favoráveis, mas também enfrentamos efeitos colaterais, como a inflação”, explica. 📊 Em 2025, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — que mede a inflação oficial do país — ffechou em 4,26%. Foi o melhor resultado desde 2018, mas isso significa apenas que os preços subiram mais lentamente, e não que tenham caído. 📈 Para manter a alta de preços sob controle, o Banco Central elevou a taxa básica de juros em 2,25 pontos percentuais ao longo do ano. Com isso, ela chegou a 15% no fim de 2025, o maior patamar em quase duas décadas. Segundo Silvia, esses dois fatores funcionaram como um “freio” na economia, afetando principalmente a compra de bens duráveis — como carros e eletrodomésticos — e outros setores que dependem de crédito para financiar suas atividades. Itens essenciais continuam caros Enquanto o desemprego caía e a renda aumentava, a inflação apertou o orçamento, atingindo com mais força os mais pobres. Para essas famílias, o aumento de preços de itens básicos — como alimentos no supermercado, conta de luz e gastos com saúde — pesa de forma mais intensa do que para quem tem mais recursos. A auxiliar de limpeza Edivânia sente a pressão nas despesas mais básicas. As contas de luz e água ficaram mais difíceis de pagar, exigindo cortes constantes no orçamento familiar. Sem margem para imprevistos, ela evita correr o risco de se endividar. “Não tenho cartão no momento e nem tenho como ter agora.” Entre os aposentados, a sensação foi de estagnação. Sebastiana diz que o dinheiro simplesmente não rendeu. “Recebo a aposentadoria, pago o que devo e fico esperando a próxima.” Supermercado e farmácia foram os gastos que mais complicaram seu orçamento — especialmente os remédios, que, segundo ela, pesam cada vez mais. Em outras faixas de renda, o aperto aparece de forma menos imediata, mas igualmente persistente — e também envolve gastos com saúde. O psicólogo Mauro consegiu manter a renda estável, mas viu crescerem as despesas com plano de saúde e procedimentos não cobertos pelas operadoras. O ajuste veio por meio de cortes. “Reduzi o consumo de itens não prioritários e deixei de viajar. Passei a controlar mais os gastos.” Peso dos juros e do endividamento O aumento do endividamento também contribuiu para limitar o consumo das famílias em 2025. Dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) indicam que, em dezembro, 73,5 milhões de consumidores estavam negativados, o equivalente a quase 45% da população adulta do país. O cartão de crédito continua sendo um dos principais vilões do endividamento. O procurador do Estado Jayme Asfora classifica as taxas como “escorchantes” e abusivas. Para se proteger, ele chegou a quebrar os cartões e abriu mão de viagens com as filhas diante dos altos custos. “Os juros já estão altos, mas os do cartão de crédito são ainda maiores. É absurdo não haver uma intervenção estatal mais efetiva sobre isso.” Mesmo quem teve aumento de renda manteve cautela. O assistente de e-commerce David passou a planejar cada compra antes de gastar. “Você precisa viver de forma controlada, sem excessos, mantendo uma vida estável, porque senão não dá. A gente passou a planejar mais”, afirma. Ele diz que deixou de viajar e passou a usar o cartão com mais cuidado para evitar novas dívidas. A médica Lara Lobo descreve impacto semelhante. Com aumentos no aluguel, na energia e no supermercado, precisou apertar o orçamento e priorizar a poupança. “Eu sinto que o poder de compra diminuiu. Não deixei de comprar porque tenho as finanças organizadas, mas percebo que muitos brasileiros continuam consumindo e enfrentam mais dificuldade até para coisas básicas.” Crescimento para quem? Lojistas oferecem descontos para pagamentos no Pix, em dinheiro ou no débito, que costumam sair mais baratos do que no crédito. Giaccomo Voccio/g1 O crescimento da economia não tem sido homogêneo entre setores e grupos sociais. Parte do baixo desemprego, segundo Silvia Matos, está ligada ao envelhecimento da população, que reduz a oferta de mão de obra. Além disso, a expansão do trabalho por aplicativos ajudou a manter a ocupação elevada. “O resultado é um mercado de trabalho que parece aquecido nas estatísticas, mas com realidades muito diferentes na prática”, aponta a economista. Setores como tecnologia e finanças contrataram mais, enquanto áreas mais dependentes de crédito, como a construção civil e parte da indústria, enfrentaram maiores dificuldades. Esse é mais um descompasso que ajuda a explicar o “enigma” apontado pelos economistas: indicadores macroeconômicos positivos convivendo com sensação de aperto no cotidiano. Embora o consumo tenha esfriado, a economia encontrou apoio em outros setores. A agropecuária, por exemplo, avançou mais de 10% em 2025. Apesar de ter peso menor no PIB, o setor contribuiu para o crescimento quase tanto quanto os serviços. “Foi um crescimento muito voltado para exportações”, explica Juliana Trece. Segundo a economista, a força do campo compensou parte da perda de dinamismo em áreas mais dependentes do mercado interno. “As exportações avançaram mais de 5%, impulsionadas principalmente por produtos agropecuários e petróleo”, ressalta. 🔎 Esses segmentos são menos sensíveis aos juros elevados. “O efeito da política monetária não é igual para todos os setores. A indústria e a construção sofrem mais porque dependem de crédito. Já a agropecuária depende mais do clima e da demanda externa”, explica Silvia Matos. Apesar do resultado positivo, o crescimento da economia brasileira teve bases frágeis. Os investimentos, por exemplo, avançaram no ano, mas boa parte desse aumento foi impulsionada pela importação de plataformas de petróleo — uma compra pontual que eleva as estatísticas de momento. “Isso não significa que as empresas, de forma geral, estejam ampliando fábricas, comprando máquinas ou aumentando sua capacidade de produção”, acrescenta Silvia. Além disso, a economia ficou “menos eficiente”. A produtividade — que mede quanto o país produz com os recursos disponíveis — caiu em relação ao ano anterior e segue abaixo do nível recorde registrado em 2013. Menos impulso e mais incertezas no horizonte Depois de um ano impulsionado principalmente pelas exportações e por um mercado de trabalho ainda resistente, 2026 deve marcar desaceleração. A expectativa é de crescimento semelhante ao de 2025 — ou até um pouco menor. Para Juliana Trece, a principal mudança está no campo. A agropecuária, que teve desempenho excepcional e ajudou a sustentar o PIB no ano passado, não deve repetir o mesmo ritmo. “Em 2025, o campo teve peso relevante no crescimento. Em 2026, essa contribuição tende a ser menor”, afirma. Se isso se confirmar, o avanço das exportações também deve perder fôlego. Por outro lado, Juliana vê algum estímulo vindo do mercado interno. A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil pode aumentar a renda disponível de parte das famílias. Além disso, anos eleitorais costumam trazer mais gastos públicos, o que ajuda a movimentar a economia no curto prazo. Silvia Matos, no entanto, adota tom mais cauteloso. Para ela, o ambiente eleitoral amplia as incertezas sobre o rumo das contas públicas e pode levar empresários a adiar investimentos. “O ano de eleição traz dúvidas, e isso costuma adiar decisões”, resume. Além disso, mesmo que o Banco Central comece a reduzir os juros, o efeito não é imediato. “Leva tempo até que a queda dos juros chegue ao crédito, reduza o custo dos financiamentos e estimule novos projetos”, destaca Silvia. Consumidores e pedestres circulam pelo Largo 13 de Maio, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo. Giaccomo Voccio/g1