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Morte de jovem de 17 anos por esganadura em casa segue sem suspeitos após 18 meses; família critica demora na investigação

2026-03-15 - 09:13

Luciana durante a comeração do aniversário de 15 anos. Arquivo pessoal A jovem Luciana Vitória da Conceição Guerra, de 17 anos, estava no último ano do Ensino Médio e tinha o sonho de entrar na faculdade para estudar psicologia. Moradora da periferia de São Paulo, estudiosa e desenhista, ela teve a vida interrompida em 21 de agosto de 2024. Luciana foi encontrada desacordada dentro de casa, na Zona Sul, pelo irmão, Lucas Miller Ramos, no fim da tarde. A adolescente estava seminua e vestia apenas uma calça jeans. A cabeça estava coberta pela perna de uma segunda calça, que estava enrolada ao redor do pescoço. A outra perna da peça estava presa a um dos pés da vítima. Com a ajuda de vizinhos, Lucas socorreu a irmã e a levou até a Unidade de Pronto-Atendimento mais próxima, porém ela não resistiu e morreu. Enquanto isso, a mãe dos dois, Mônica Maria da Conceição, recebeu a notícia após um dia de trabalho como vigilante de um banco na Avenida Paulista. Durante a investigação, laudos do Instituto de Criminalística, aos quais o g1 teve acesso, apontaram que a causa da morte da adolescente foi asfixia mecânica por esganadura. A perícia também identificou sêmen na calcinha da jovem e manchas de sangue na calça jeans. O caso ainda é investigado pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). Após um ano e meio do crime, a polícia ainda não apontou suspeitos. Até agora, a perícia no celular da jovem e a comparação do sêmen com o material genético de familiares e vizinhos ainda não foram realizadas. Veja os vídeos que estão em alta no g1 A família critica a demora da investigação. A mãe contou ao g1 que precisou se mudar de casa e não consegue mais dormir nem se alimentar normalmente desde o assassinato. Minha vida está destruída. Eu vendi a minha casa, tive que ir para outro lugar. Eu ando sempre com medo e preocupada, porque uma pessoa entrou numa casa com uma mulher sozinha e a matou. Sou uma mulher sozinha. Vão me matar também? Questionada, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) não respondeu por que razão os exames ainda não foram concluídos. Em nota, a pasta afirmou apenas que "segue empenhada no esclarecimento das circunstâncias do crime e na conclusão do caso". O crime No dia do assassinato, Mônica saiu para trabalhar por volta das 5h. Ela e a filha moravam em uma casa no bairro Guacuri, na Zona Sul da capital. Lucas também havia se mudado recentemente para o imóvel após perder o emprego. Desempregado, ele saiu para vender doces no semáforo por volta das 9h30. Ao retornar para casa, por volta das 17h30, encontrou a porta trancada. Segundo o depoimento de Lucas, ele bateu e chamou pela irmã diversas vezes, mas não recebeu resposta. Em seguida, ligou para a mãe pedindo autorização para estourar a grade da janela da cozinha. Mônica não permitiu e disse que o molho de chaves provavelmente estava em cima de um armário. Com a ajuda de vizinhos e um cano, Lucas conseguiu "pescar" a chave e abrir a porta. Ao entrar na casa, encontrou a irmã inconsciente, caída no chão do quarto. Em choque, começou a gritar e, com a ajuda de um vizinho, cortou com uma faca de serra a calça que cobria a cabeça de Luciana. A jovem foi levada para a UPA Parque Doroteia, onde a morte foi constatada. Luciana companhou a mãe durante a colação de grau do curso de Direito em 2024, no mesmo ano em que foi morta. Arquivo pessoal Investigação Inicialmente, o caso foi registrado como morte suspeita, com possibilidade de suicídio. Cerca de seis meses depois, a polícia passou a tratar como homicídio doloso — quando há intenção de matar — além de apurar um eventual estupro. A mudança ocorreu após o laudo necroscópico, que apontou sinais de violência. O exame identificou: manchas arroxeadas no pescoço e abaixo do queixo; hematomas nas duas pálpebras; escoriações no pescoço com formato semelhante a marcas de unhas. Além disso, as roupas encontradas no local foram entregues pela mãe da vítima e encaminhadas para perícia. Na calcinha da jovem foi identificado líquido seminal. No início do ano passado, a polícia coletou material genético do irmão, do pai, do tio e de um vizinho da vítima para comparação com o sêmen encontrado na roupa. Até agora, porém, os exames não foram concluídos. Como a autoria do crime é desconhecida, esse confronto de DNA é considerado um dos principais caminhos para identificar o responsável. "Infelizmente, até o momento, nem os resultados dos exames de DNA ficaram prontos. Não houve Justiça. Por mais que seja demorado, acredito que não seja tanto assim. Principalmente se fosse uma mulher branca, uma menina rica, filha de um delegado ou de uma promotora. Com certeza isso já teria sido esclarecido", diz Mônica. Para a mãe de Luciana, o crime pode ter sido cometido por alguém conhecido, já que a casa não tinha sinais de arrombamento. "Não levaram nada, não levaram o celular dela. Então, provavelmente foi alguém da confiança dela." Uma câmera de segurança de um vizinho registrou a movimentação da rua no dia do crime, incluindo o momento em que Mônica e Lucas saem para trabalhar. O equipamento também registrou quando Lucas chegou em casa e permaneceu do lado de fora por estar sem a chave, além do momento em que ele saiu carregando a irmã para levá-la ao hospital. Segundo o dono do imóvel, no entanto, a câmera funciona com sensor de movimento, o que gerou lacunas nas gravações. Para a família, porém, ainda faltam esclarecimentos sobre essas falhas. O advogado da família, Ewerton Carvalho, afirma que o dono do imóvel em que a câmera está instalada ainda não foi ouvido pela polícia para explicar as lacunas nas imagens. Segundo ele, há um intervalo específico nas gravações — entre cerca de 15h e 16h — justamente no período em que o crime pode ter ocorrido. “Analisamos boa parte das imagens fornecidas à família e não aparece o momento exato em que o assassino entra ou sai. O que chama atenção é que justamente esse trecho da filmagem está faltando”, disse ao g1. Carvalho também critica a demora na realização do exame de DNA que pode identificar o autor do crime. “A família acredita que há falhas na investigação, principalmente em relação às câmeras e à falta do exame de DNA até agora.” Uma das paixões de Luciana era desenhar e pintar quartos. Arquivo pessoal Quem era Luciana Mônica ainda guarda os quadros pintados pela filha, que gostava de desenhar e tinha nas artes uma de suas paixões. Aos 17 anos, Luciana estava no último ano do Ensino Médio e sonhava em cursar psicologia. "Ela era muito estudiosa, gostava de artes. Eu tenho dois quadros em casa que foi ela que pintou. Ela gostava das músicas de Michael Jackson, do BTS, não era aquela menina que gostava muito de coisas de funk. Gostava de coisas antigas, como Tim Maia", relembra Mônica. A jovem também participava de cursos profissionalizantes voltados a adolescentes da comunidade. Para ganhar experiência, decidiu fazer estágio voluntário em um projeto social que oferecia atividades gratuitas para jovens da região. Mesmo sem receber pagamento, Luciana participava das atividades com entusiasmo e ajudava na organização de eventos do projeto. “Ela descia para o curso com prazer, com amor. Queria aprender e ter experiência para conseguir um trabalho melhor no futuro”, lembra a mãe. Para Mônica, porém, o que mais marcava a filha era a forma como cuidava da família. “Luciana era uma menina doce. Era minha melhor amiga, minha companheira. Ela me dava conselhos, me dava carinho nos momentos mais difíceis.” Luciana foi morta aos 17 anos. Arquivo pessoal A morte da filha também interrompeu os planos da própria mãe. Mônica se formou em direito em 2024 e se preparava para prestar o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Desde o assassinato, no entanto, diz que não conseguiu mais retomar os estudos. “Eu estava me preparando para a prova, mas depois que perdi minha filha não consegui mais focar. Essa pessoa acabou com o meu psicológico”, disse. A mãe afirma que ainda tenta lidar com o luto enquanto espera por respostas sobre o crime. “O que mais dói é querer ouvir a voz da minha filha, abraçá-la, sentir o coração dela batendo... e saber que isso nunca mais vai acontecer.” O que diz a SSP "O caso foi registrado inicialmente como morte suspeita pelo 98o Distrito Policial (Jardim Miriam). Após novas evidências coletadas no decorrer das investigações, o inquérito policial foi encaminhado à Divisão de Homicídios do DHPP, que segue empenhada no esclarecimento das circunstâncias do crime e na conclusão do caso. Demais detalhes serão preservados para garantir a autonomia dos trabalhos policiais."

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