Mensagens indicam que tenente-coronel 'enfiou a mão na cara' da esposa PM 13 dias antes da morte em SP
2026-03-18 - 20:40
O tenente-coronel Geraldo Neto, preso por suspeita da morte da esposa Gisele Alves Santana. Reprodução/Redes Sociais Mensagens extraídas pela Corregedoria da Polícia Militar do celular do tenente-coronel Geraldo Neto, preso sob suspeita de matar a esposa, a PM Gisele Alves Santana, apontam que ela teria sido agredida fisicamente por ele 13 dias antes de morrer no apartamento onde o casal vivia, no Brás, região central de São Paulo. Segundo relatório de investigação ao qual a TV Globo teve acesso, no dia 6 de fevereiro os dois trocaram mensagens nas quais Gisele afirma que o marido estava “sempre caçando um motivo para brigar” e que teria agredido e gritado com ela no dia anterior, 5 de fevereiro de 2026. “Você sempre caçando um motivo para brigar. Mas você vai ver só. Você enfiou a mão na minha cara ontem. Gritou comigo hoje”, escreveu. A PM Gisele morreu no dia 18 de fevereiro. De acordo com a Corregedoria, “as extrações das mensagens trocadas entre a Sd PM Gisele e o oficial revelam, inclusive, episódio que sugere a ocorrência de violência física praticada contra a vítima”. “A expressão ‘enfiou a mão’ em seu rosto, no contexto do diálogo, indica possível agressão física sofrida pela vítima. Tal registro evidencia que, antes mesmo do evento fatal ora investigado, a Sd PM Gisele já estaria submetida a um ambiente relacional marcado por comportamentos agressivos e potencialmente violentos”, concluíram os investigadores. Imagens mostram o tenente-coronel Geraldo Neto preso pela morte da mulher O crime ocorrido no Brás foi inicialmente classificado como suicídio. A denúncia da família sobre o relacionamento tumultuado entre os dois, no entanto, levou a Polícia Civil a aprofundar as investigações do caso. A conclusão, após laudos periciais 30 dias depois do crime, é de que Gisele Alves não teria se matado, mas sim sido vítima de homicídio. O tenente-coronel Geraldo Neto foi indiciado pelos crimes de feminicídio e fraude processual. Ele foi preso nesta quarta-feira (18), em São José dos Campos, após a detenção ter sido autorizada pela Justiça Militar de São Paulo. Humilhações e machismo Caso Gisele: provas vão contra versão apresentada por Geraldo Neto Em outras mensagens obtidas pela Corregedoria da Polícia Militar, Gisele afirma que era submetida a episódios de humilhação, piadas e comportamento “babaca” por parte do marido, até no ambiente de trabalho na Polícia Militar, onde ele aparecia na seção onde ela trabalhava e ficava horas observando o trabalho dela. Em um dos diálogos, ela escreve que Geraldo Neto teria que mudar o comportamento “babaca” e “sem escrúpulos”. “Não dá para entender. Você pediu para eu não ir embora. Eu fico e você continua igual, até pior, com seu tratamento. Falando coisas para me humilhar, para me provocar”, escreveu a PM, morta com um tiro na cabeça. “Se você quer separar, vamos separar. Mas, se você continuar, vai ter que mudar seu comportamento estúpido, ignorante, intolerante e sem escrúpulos. Estou deixando bem claro para você que não vou aguentar muito tempo esse comportamento babaca”, afirmou. Gisele Alves Santana também reclamou: “Toda hora jogando piada, me chamando de burra, mandando arrumar um soldado. O que a função tem a ver com relacionamentos?”, disse. LEIA MAIS: Amigo de tenente-coronel, desembargador não interferiu em cena do crime, diz corregedor da PM Trajetória da bala, cena montada e ferimentos no pescoço levaram polícia a apontar feminicídio na morte da soldado da PM em SP De queixa de ciúmes a pedido de prisão do marido: veja cronologia do caso de PM morta com tiro na cabeça Em outras mensagens, segundo a investigação, Geraldo Neto faz declarações machistas contra a esposa: “Lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. E não na rua, caçando assunto. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho”, declarou. A PM Gisele Alves Santana e o tenente-coronel Geraldo Neto, acusado de assassinar a mulher no apartamento onde eles viviam, no Centro de São Paulo. Reprodução/TV Globo Para a Corregedoria da PM - que pediu a prisão do tenente-coronel - os diálogos revelam a “concepção de relacionamento baseada em submissão e hierarquia no âmbito doméstico”. “Tais manifestações não se apresentam como meros desentendimentos ocasionais entre um casal, mas sim como indícios de violência psicológica reiterada, caracterizada por tentativas de controle, constrangimento e desqualificação da autonomia da Sd PM Gisele”, disse a investigação. Na visão dos investigadores da PM, “antes mesmo do evento fatal investigado, a Sd PM Gisele já estaria submetida a um ambiente relacional marcado por comportamentos agressivos e potencialmente violentos”. "O conteúdo extraído do aparelho celular não apenas confirma o contexto de conflito conjugal anteriormente relatado por testemunhas, como também evidencia elementos objetivos de violência psicológica e dinâmica relacional marcada por tensão e controle, circunstâncias que assumem relevância para compreensão do ambiente em que se inserem os fatos investigados", disseram os policiais corregedores que investigam o caso. Mensagens trocadas entre o tenente-coronel Geraldo Neto e a esposa PM Gisele Alves Santana. Reprodução/TV Globo Prisão em São José dos Campos A Justiça Militar decretou nesta terça-feira (17) a prisão preventiva do tenente-coronel Geraldo Neto. Ele foi preso pela Corregedoria da Polícia Militar (PM) em São José dos Campos, interior do estado, por volta das 8h17 desta quarta-feira (18). Por meio de nota, a defesa do oficial reagiu à prisão de seu cliente alegando que ela não poderia ter sido feita pela Justiça Militar. Veja o momento que tenente-coronel deixa condomínio com policiais no interior de SP "A Justiça Militar é incompetente para analisar, processar e julgar o caso e, especialmente, para decretar medidas cautelares", disse o advogado Eugênio Malavasi, que defende Geraldo. O criminalista vai suscitar conflito de competência com a Justiça comum. Antes de ser detido, o coronel alegava que a esposa havia se suicidado após uma discussão. Mas essa versão caiu por terra após a Polícia Civil passar a investigar o caso como morte suspeita e laudos periciais indicarem que Geraldo matou a soldado (saiba mais abaixo). A Corregedoria da PM pediu a prisão do coronel com base na investigação da Polícia Civil, que um dia antes o indiciou pelos crimes de feminicídio (homicídio contra mulher por questões de gênero) e fraude processual (ter adulterado a cena do crime). Coronel Geraldo Neto (ao centro) é preso pela Corregedoria da PM por suspeita de matar a esposa, a soldado Gisele Alves Reprodução/TV Globo Ainda na terça-feira (17), a delegacia que investiga o caso também pediu a prisão de Geraldo, mas a Justiça comum ainda não havia se manifestado. A decisão de prender o coronel saiu antes pela Justiça militar. O que diz a Justiça Militar Por meio de nota, o Tribunal de Justiça Militar (TJM) informou que "a prisão preventiva foi decretada com base na garantia da ordem pública, na conveniência da instrução criminal e na necessidade de preservação da hierarquia e disciplina militares". "O magistrado destacou o risco de interferência nas investigações, inclusive pela possibilidade de influência sobre testemunhas, além da gravidade concreta dos fatos apurados. A decisão também autorizou a apreensão de aparelhos celulares, a quebra de sigilo de dados eletrônicos e o compartilhamento de provas com a Polícia Civil, que conduz investigação paralela", informa trecho do comunicado do TJM. O tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, marido da policial militar Gisele Alves Santana. Reprodução/TV Globo Na determinação, o juiz militar também determinou que "o investigado deverá ser submetido a audiência de custódia, conforme previsto na legislação vigente" e as investigações prosseguem para o completo esclarecimento dos fatos. Também por nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que o coronel seguirá preso para o 8o Distrito Policial (DP), Brás, no Centro de São Paulo, onde Geraldo é investigado pelo assassinato de Gisele. Ele será interrogado e passará por exames de corpo de delito. Após isso, irá para o Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte da capital. "O Inquérito Policial Militar (IPM) será concluído nos próximos dias", informa o comunicado da pasta da Segurança. Laudos apontam feminicídio Tenente-coronel Geraldo Neto é preso nesta manhã em São José dos Campos A decisão das autoridades em pedir a prisão de Geraldo aconteceu após a Polícia Técnico-Científica anexar ao inquérito laudos relacionados à morte de Gisele. Indícios que constam em dois dos 24 laudos foram determinantes para isso: Trajetória da bala que atingiu a cabeça da vítima; Profundidade dos ferimentos encontrados. Resultados de exames, como o necroscópico, o da exumação do corpo e o toxicológico foram cruciais para a delegacia concluir que Geraldo matou Gisele por ciúmes e possessividade. O oficial tem 53 anos; Gisele tinha 32. Muitos dos laudos foram refeitos a pedido da própria investigação porque havia dúvidas sobre as circunstâncias da morte da soldado. Veja abaixo a importância de cada um deles para a investigação: Necroscópico: concluiu que Gisele tinha marcas de dedos no pescoço e desmaiou antes de ser baleada e morta com um tiro na cabeça; Trajetória do tiro: apontou que o disparo foi dado de baixo para cima e com o cano encostado na cabeça; Exumação: vários exames foram refeitos no corpo, até mesmo complementares, como o necroscópico; Toxicológico: não encontrou resquícios de álcool ou drogas, descartando a possibilidade de ela ter bebido ou estar dopada; Residuográfico: não detectou pólvora nas mãos de Gisele nem nas de Geraldo; De local de crime: Gisele foi encontrada caída e segurando a arma, o que é incomum em casos de suicídio _segundo peritos, o mais provável é que ela largasse a pistola. Laudo mostra que PM morta em São Paulo tinha ferimentos no rosto e no pescoço Outros pontos que chamaram a atenção: O fato de o coronel ter telefonado para a PM, para pedir socorro, apenas 29 minutos minutos após uma vizinha escutar um tiro; O coronel havia dito que tinha tomado banho antes de a mulher atirar, mas quando socorristas chegaram ao imóvel o encontraram com o corpo seco; Somente após ter ligado para um desembargador amigo dele, que foi à residência, é que Geraldo foi se banhar, desobedecendo inclusive orientação de policiais militares que estavam no local. Câmeras de segurança gravaram o encontro do coronel com o desembargador (veja vídeo nessa reportagem); Exames indicaram a presença de sangue de Gisele no box do banheiro e em outros cômodos do apartamento. A perícia usou o luminol _equipamento com reagente químico, que indica substância hematóide contra a luz _ para achar as gotas de sangue; Após a perícia na residência, três policiais militares mulheres foram até lá limpar o imóvel. Por causa dessa conduta, o coronel passou a ser investigado pela Corregedoria da PM também por abuso de autoridade. Geraldo havia pedido afastamento da corporação após a morte da esposa; Sexológico: constatou que ela não estava grávida; Reconstituição: conhecido tecnicamente como reprodução simulada, ele apresentará por meio de fotos as versões que Geraldo e testemunhas deram para o que ocorreu. Ainda não ficou pronto. Viaturas da Corregedoria da PM chegam ao condomínio de São José dos Campos onde o tenente-coronel mora. Reprodução/TV Globo LEIA TAMBÉM: VÍDEO mostra policiais indo limpar apartamento depois de morte Caso da PM morta em São Paulo. Fantástico Socorrista diz que desconfiou da forma em que arma estava encaixada na mão de PM encontrada baleada Reprodução/TV Globo Amigo de tenente-coronel, desembargador não interferiu em cena do crime, diz corregedor da PM