Medidas de Trump e apagões forçam Cuba a negociar com os Estados Unidos
2026-03-21 - 06:10
Cuba sofreu diversos apagões nos últimos anos Norlys Perez/REUTERS Nos últimos dois anos, Cuba sofreu quatro apagões em todas as regiões do país. Desde fevereiro de 2024, dez apagões generalizados abalaram a economia e o ânimo da população. Enquanto aumenta a pressão do bloqueio petrolífero imposto pelos Estados Unidos, o governo cubano se viu forçado a iniciar negociações com Washington. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça Donald Trump reiterou no início desta semana suas ameaças de assumir o controle da ilha e disse que poderia fazer "qualquer coisa" que quisesse com o país caribenho – o que aumentou as especulações de que os principais líderes cubanos poderiam enfrentar o mesmo destino do ex-líder venezuelano, Nicolás Maduro. A prisão de Maduro, em janeiro, não apenas mostrou aos cubanos até onde Trump estava disposto a ir, como também deixou o regime sem um de seus principais aliados e fornecedores de petróleo. Relações espinhosas entre EUA e Cuba Localizada a cerca de 150 quilômetros do estado da Flórida, no sul dos EUA, Cuba tem sido uma pedra no sapato dos norte-americanos desde a revolução de 1959 liderada por Fidel Castro. O regime comunista se impôs de maneira consistente perante os EUA, que costumavam exercer forte influência sobre a ilha e, durante a Guerra Fria, consideravam Cuba um ponto de entrada para outros Estados comunistas, como a União Soviética e a China. Muitos exilados cubanos nos EUA esperam a queda do regime em Cuba para poder voltar ao país Carl Juste/Miami Herald/ZUMA/picture alliance O ex-presidente dos EUA, Barack Obama, até buscou uma aproximação e tentou reavivar as relações com Havana, no entanto, os esforços foram revertidos por Trump durante seu primeiro mandato (de 2017 a 2021). O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, é um dos americanos de ascendência cubana mais proeminentes. A diáspora cubana, por sua vez, constitui um importante bloco eleitoral — especialmente na Flórida, estado-chave nas eleições. Klemens Fischer, especialista em política externa da Universidade de Colônia, na Alemanha, afirmou à emissora alemã ZDF que a atual escalada da retórica de Trump em relação a Cuba é provavelmente motivada por questões de política interna. "Pode ser uma tentativa de se desvencilhar, visto que as coisas não estão indo como ele gostaria no Irã", disse. "Ele precisa mostrar que é um presidente forte. Por outro lado, ele também precisa evitar se envolver em outra guerra." Trump, no entanto, já havia intensificado a pressão sobre Cuba. Em janeiro, o presidente norte-americano pediu à nova líder venezuelana, Delcy Rodríguez, que interrompesse por completo o envio de petróleo à ilha caribenha. Os EUA também bloquearam as rotas marítimas para a ilha e ameaçaram com sanções os países que fornecem petróleo a Cuba. De acordo com o governo cubano, o país não recebe carregamentos de petróleo há três meses. Ao mesmo tempo, a produção interna — em queda há anos — cobriu menos de 30% da demanda em 2024, agravando os apagões, já que a principal fonte de energia local ainda são as usinas termoelétricas movidas a petróleo. Pior crise econômica em três décadas A escassez de energia é apenas um – embora significativo – aspecto da atual crise econômica, afirmou à DW o economista cubano Elias Amor, que vive na Espanha. Ele disse que, além de um breve período de recuperação, a economia cubana encolheu em média 2,75% ao ano desde o início da pandemia de covid-19 em 2020, sendo que em 2025 essa retração aumentou para 5%. "A economia cubana está em seu pior estado desde o 'Período Especial'", observou. O Período Especial é o termo dado pelo regime cubano à profunda recessão que atingiu o país após o colapso da União Soviética no início da década de 1990, quando os salários reais caíram 90% em quatro anos. O governo de Fidel Castro introduziu reformas temporárias, incluindo a abertura gradual do setor de turismo, o que resultou em uma recuperação parcial. Mas foi somente quando Hugo Chávez chegou ao poder na Venezuela e o país assumiu o papel de patrocinador de Cuba, substituindo a União Soviética, que a economia realmente começou a se recuperar de maneira substancial. O economista avalia que a abertura gradual da economia cubana nas últimas décadas ajudou a evitar uma crise semelhante à do início dos anos 1990. Ainda assim, projeta que as reformas implementadas por Raúl Castro e por seu sucessor, Miguel Díaz-Canel, não tiveram grande impacto. "Nem mesmo o turismo será capaz de estancar esta crise, já que as forças motrizes da economia pararam completamente", disse ele. Rubio: sistema cubano precisa "mudar drasticamente" Aparentemente, foi a enorme pressão interna e externa de Cuba que forçou o regime à mesa de negociações. Na semana passada, o presidente cubano confirmou que as conversas aconteceriam, como Trump havia anunciado no início de março. No início desta semana, o vice-primeiro-ministro Oscar Pérez-Oliva, sobrinho-neto dos irmãos Castro, afirmou que Cuba estava aberta a permitir o comércio com empresas americanas e a permitir que cubano-americanos investissem em empresas cubanas. Secretário de Estado, Marco Rubio, é um dos descendentes cubanos mais proeminentes nos EUA Jonathan Ernst/AFP Rubio, no entanto, disse que os esforços do regime não foram "suficientemente drásticos". Ele afirmou que o sistema político e governamental não poderia ser consertado e acrescentou que a economia não estava funcionando, acrescentando que "eles precisam mudar drasticamente". Apesar da grave situação econômica, Maria José Espinosa, diretora do Centro para o Engajamento e Ativismo nas Américas (Ceda), com sede em Washington, duvida que o regime cubano esteja à beira do colapso. "O aparato estatal – o partido comunista, as forças de segurança e o sistema militar-econômico – permanece relativamente coeso", afirmou. Somente os Castro podem introduzir mudanças reais No entanto, as rachaduras estão começando a aparecer. Para muitos, Miguel Díaz-Canel é visto como um membro do partido que perdeu influência e se tornou, na prática, substituível. De acordo com Ted Henken, professor da City University of New York (Cuny), somente os militares – e os Castros – seriam realmente capazes de introduzir mudanças fundamentais no país. "É a família Castro que controla e dirige as negociações com os Estados Unidos", disse o especialista à DW. Além do vice-primeiro-ministro Pérez-Oliva, cuja estrela está em ascensão, também está se tornando cada vez mais importante o neto de Raúl Castro, Raúl Guillermo, conhecido como El Cangrejo ("O caranguejo"). "Tudo aponta para o fato de que eles representarão os interesses da família Castro e, de uma forma ou de outra, acabarão liderando o governo", afirmou Henken. Ele disse ainda duvidar que a nova geração consiga promover reformas estruturais que levariam vários anos até que fossem implementadas.