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Laboratório NB-3: o que é e qual seu papel para a ciência? Entenda local onde vírus foi furtado na Unicamp

2026-03-28 - 09:20

Laboratório NB-3: o que é e qual seu papel para a ciência? Acesso controlado, normas rígidas para transporte de micro-organismos de alto risco e protocolos de descontaminação. Para ser classificada com nível de biossegurança 3 (NB-3), uma estrutura como o Laboratório de Virologia da Unicamp, que teve amostras de vírus furtadas, precisa atender a uma série de exigências. Ao todo, existem quatro níveis de biossegurança, do NB-1 ao NB-4. O Brasil, no entanto, opera apenas até o nível 3. No Brasil, há laboratórios NB-3 distribuídos em diferentes regiões, como em Campinas, incluindo unidades da Unicamp; na Universidade de São Paulo (USP); no Rio de Janeiro, na Fiocruz; e em Belém (PA), no Instituto Evandro Chagas (IEC). O NB-4, considerado o mais alto grau de contenção, está em construção no país, em Campinas, no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Possuir um laboratório de biossegurança máxima (NB-4) oferece condições ao país de monitorar, isolar e pesquisar os agentes biológicos para desenvolver métodos de diagnóstico, vacinas e tratamentos. No mundo, estruturas como essa são as responsáveis por análises e estudos de vírus como o Ebola, por exemplo, que são mais perigosos que o SARS-CoV-2, causador da Covid-19. 🧪 Nesta reportagem, o g1 consultou as resoluções normativas e um especialista para explicar o que é um laboratório NB-3, como ele funciona, as regras e sua importância para a ciência. Níveis de biossegurança Nível de biossegurança 1 (NB-1): é o nível básico de contenção voltado para o trabalho com microrganismos conhecidos por não causarem doenças em adultos saudáveis, apresentando risco mínimo. ⚠️ O trabalho é feito em bancadas abertas usando práticas padrão de microbiologia, e a única barreira secundária exigida é uma pia para lavagem das mãos. Nível de biossegurança 2 (NB-2): aplicável a laboratórios que lidam com um espectro de agentes de risco moderado associados a doenças humanas de gravidade variável. ⚠️ Exige, além das práticas de NB-1, treinamento específico, acesso limitado, precauções extremas com objetos cortantes e o uso de Cabines de Segurança Biológica (CSB) para procedimentos que gerem aerossóis ou borrifos. Nível de biossegurança 3 (NB-3): destinado ao trabalho com agentes nativos ou exóticos que possuem potencial de transmissão por via respiratória (aerossóis) e podem causar infecções sérias ou fatais. ⚠️ Enfatiza barreiras primárias e secundárias, exigindo que todas as manipulações ocorram em cabines de segurança e que o laboratório possua fluxo de ar negativo unidirecional, sem recirculação para outras áreas. Nível de biossegurança 4 (NB-4): representa o nível máximo de contenção para agentes exóticos perigosos que oferecem alto risco de doenças fatais, transmissão por aerossóis e para os quais não existem vacinas ou tratamentos. ⚠️ Requer o isolamento completo do pessoal por meio de cabines de segurança classe III ou macacões de pressão positiva, em instalações isoladas com sistemas de ventilação e gerenciamento de resíduos altamente especializados 🔬 Como funciona o NB-3 O que é: É uma instalação de contenção projetada para o manejo seguro de micro-organismos. O objetivo é garantir a proteção do pesquisador e do meio ambiente contra agentes que possuam alto risco de agravo à saúde, mas baixo ou moderado risco de disseminação. Exemplo de agentes da classe de risco 3: Bacillus anthracis, bactéria causadora da doença infecciosa conhecida como antraz, e vírus da imunodeficiência humana (HIV) -- a depender da carga viral. Para que serve: O laboratório é uma barreira de segurança para pesquisas, ensino, desenvolvimento tecnológico e produção em pequena ou grande escala envolvendo micro-organismos. É necessário para a criação de vacinas e medicamentos. "Para você fazer qualquer estudo, seja de vacina ou medicamento, você precisa ser capaz de propagar esse vírus de forma contida. Isso é feito com segurança no NB-3", explica Luis Lamberti, coordenador do Centro de Pesquisa em Virologia da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto (FMRP). O professor da FMRP destaca que micro-organismos estudados em estruturas com NB-3 são aqueles que oferecem risco biológico, que podem causar algum tipo de doença, e para os quais ainda não existe uma vacina, ou que não são tão comuns naquele ambiente. "O vírus da dengue, por exemplo, a gente não usa o NB-3, porque ele já está em nosso ambiente. Mas o coronavírus, quando surgiu, não tinha vacina, causava uma doença grave, por muito tempo foi um vírus de classe 3. Essas classificações são dinâmicas", diz Lamberti. 🦠 O especialista usa a manipulação do vírus HIV para explicar a dinâmica dos trabalhos dentro dos diferentes níveis de biossegurança. "O HIV é um vírus patogênico de classe 3, a gente quer evitar que as pessoas se contaminem. Mas manipular sangue de um paciente HIV positivo, não precisa ser no NB-3. Você faz isso no NB-2, porque a carga viral é baixa, não é fácil de se infectar. Agora, quando a gente vai fazer um estudo para HIV, a gente tem que produzir o HIV, e aí a quantidade de vírus é alta. Aí precisa ser no NB-3". Lamberti detalha que o mesmo ocorre com vírus como o H1N1, que estava entre as amostras furtadas da Unicamp. LEIA TAMBÉM Pesquisadora investigada por furto de vírus descartou amostras em laboratório após busca da PF em sua casa, diz delegado Furto de vírus da Unicamp: câmera flagrou marido de pesquisadora saindo de laboratório com caixas, diz PF Laboratório de Virologia do instituto de Biologia da Unicamp Estevão Mamédio/g1 Exigências técnicas Segundo a Resolução Normativa no 18, do CTNBio, as principais exigências para um laboratório NB-3 são: 🧫 Infraestrutura e contenção física Isolamento: As instalações do NB-3 devem ter separação física de outras áreas de trânsito livre ou corredores. Acesso controlado: A entrada para o laboratório deve ser feita por meio de um sistema de dupla porta, incluindo uma antessala para troca de roupas e dispositivos de acesso em duas etapas. Superfícies e mobiliário: Paredes, tetos e pisos devem ser resistentes à água, selados e lisos para facilitar a limpeza. O mobiliário deve ser rígido e as janelas lacradas com vidros duplos de segurança. Equipamentos de proteção: Toda manipulação de risco deve ocorrer obrigatoriamente dentro de cabines de segurança biológica, que funcionam como uma barreira física e de fluxo de ar, que protegem o material manipulado, o ambiente e o operador. 😷 Sistema de ventilação e ar Pressão negativa do ar: é um sistema de ventilação em que o ar sempre flui para dentro do ambiente, impedindo que os contaminantes escapem para áreas externas. Filtragem do ar: Todo o ar que sai do laboratório deve passar por filtros capazes de capturar vírus, bactérias, fungos, poeira fina e aerossóis antes de ser eliminado para o exterior ou recirculado. Esses filtros são conhecidos como HEPA (High Efficiency Particulate Air, ou filtro de ar de alta eficiência para partículas, em português). ☣️ Gestão de resíduos e descontaminação Autoclave de barreira: É obrigatória a presença de uma autoclave de dupla porta no interior das instalações para a descontaminação de resíduos. O equipamento esteriliza materiais por meio de vapor de água sob alta temperatura e pressão. Resíduos líquidos: Todos os líquidos gerados na estrutura devem passar por tratamento em caixas de contenção antes de serem liberados no sistema sanitário. Higiene: Deve haver um sistema de descontaminação das mãos próximo à saída. Ralos são proibidos ou devem possuir dispositivos de fechamento. 🥼 Procedimentos e equipe Roupas e equipamentos de proteção individual (EPI): Obrigatório o uso de uniforme completo específico, que deve ser descontaminado antes de ir para a lavanderia ou descarte. É exigido o uso de máscaras faciais ou respiradores. Treinamento e saúde: A equipe que utiliza o NB-3 deve ter treinamento específico em agentes de Classe 3 e supervisão constante. Exames médicos anuais são obrigatórios. Transporte: Qualquer material biológico com capacidade de propagação só pode sair se estiver em embalagem apropriada. Regras para transporte A resolução normativa no 26, também da CTNBio, define as diretrizes obrigatórias para o transporte desses agentes. No caso de materiais de classes 2 e 3, as regras envolvem autorização expressa e embalagens específicas. A retirada das amostras sem autorização do laboratório da Unicamp, entre elas dos vírus H1N1 e H3N2, causadores da gripe tipo A, além de outros vírus humanos e suínos, representa um claro descumprimento dessas regras. Para o transporte de micro-organismos dessas classes, a CTNBio precisa emitir uma autorização prévia, com informações sobre destino, quantidade e condições da embalagem, além da anuência expressa da instituição de destino. 🧰 Dupla embalagem obrigatória: segundo a norma, devem ser utilizados, no mínimo, dois recipientes, um interno e um externo, que ofereçam resistência durante o transporte. ☣️ Símbolos obrigatórios: a embalagem deve conter o símbolo universal de "risco biológico" e, se pertinente, o de "frágil". ⚠️ Mensagem de alerta: O conteúdo deve apresentar, obrigatoriamente, a frase: "O acesso a este conteúdo é restrito à equipe técnica devidamente capacitada". 📞 Informações de contato: O recipiente externo deve exibir nome, endereço e telefone de quem envia e de quem vai receber. Professor de Biologia Celular, Luis Lamberti explica que, por conta de tantas etapas de segurança e normas, um caso como o registrado na Unicamp só ocorreu porque envolvia pessoas com acesso a áreas restritas e conhecimento técnico para manipulação das amostras. "É quase impossível uma pessoa de fora fazer isso. Não é tão fácil. Era preciso ter acesso, saber exatamente onde estava e pegar. E transportar corretamente, com gelo seco. Se você pegar e deixar uma amostra no sol, esses vírus vão morrer. É preciso conhecimento técnico", ressalta. LEIA TAMBÉM Câmeras registraram retirada de vírus de laboratório da Unicamp; veja cronologia do caso Furto de vírus na Unicamp: H1N1 estava entre amostras levadas de laboratório Entenda em vídeo a distância percorrida por material biológico dentro da universidade Unicamp aciona Polícia Federal e interdita laboratórios após furto de material de pesquisa Professora da Unicamp investigada por furto de vírus estuda vacinas e doenças em animais Sociedade Brasileira de Virologia acompanha investigação e reforça confiança em protocolos de segurança científica Laboratório de Virologia e Biotecnologia Aplicada (NB-2 e NB-3) do Instituto de Biologia da Unicamp Estevão Mamédio/g1 'Investimento necessário' O especialista ressalta que a construção de um laboratório NB-3 representa um investimento caro, desde a estrutura física, que conta, entre outras coisas, com sistemas de ar que precisam ser trocados com regularidade, equipamentos importados, treinamento de equipes e materias de segurança. 🔬 Mas um equipamento desse porte é essencial para a ciência e resposta diante de emergência sanitárias, como foi o caso da Covid-19. "Não tem como a gente fazer uma vacina pra um vírus se você não tem um estoque desse vírus. Na pandemia, quando o pessoal conseguiu isolar o coronavírus e replicar ele, a gente conseguiu o vírus para testar, entender como ele agia", disse. Segundo Lamberti, manter vírus e outros micro-organismos armazenados em estruturas seguras é necessário para o enfrentamento de doenças, inclusive de algumas erradicadas. LEIA TAMBÉM De roupa inflável a banho químico: conheça protocolos de segurança no 1o laboratório do Brasil para estudar vírus mais letais do mundo Como brinquedos infantis serão usados para treinar cientistas no 1o laboratório do Brasil de biossegurança máxima "O vírus da varíola está erradicado, a gente não tem mais ele circulando. Mas há um local que esse vírus está estocado, porque se um dia ele voltar a circular, a gente consegue produzir uma vacina. Por isso a gente tem que ter os nossos bancos, precisamos ter isso aqui", enfatiza. Como Orion vai garantir segurança para estudar vírus e bactérias altamente perigosos Investigação e prisão de pesquisadora A investigação começou quando uma pesquisadora autorizada do Laboratório de Virologia do Instituto de Biologia notou, na manhã de 13 de fevereiro de 2026, o desaparecimento de caixas com amostras virais. No dia 23 de março, a PF cumpriu mandados em laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos. Todos os laboratórios da faculdade ficaram temporariamente interditados durante a ação. A Polícia Federal localizou as amostras espalhadas em três locais diferentes: Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA): foram encontradas diversas caixas com amostras dentro de tubetes em um freezer lacrado. Laboratório de Doenças Tropicais (Instituto de Biologia): foram localizados tubetes manipulados e abertos no espaço reservado a Soledad dentro do freezer de outra professora. Próximo ao refrigerador, havia material descartado que provavelmente já havia passado por autoclave. Laboratório de Cultura de Células (Instituto de Biologia): uma grande quantidade de frascos descartados foi localizada em uma lixeira. Furto de vírus na Unicamp: PF diz que também investiga marido de pesquisadora e descarta risco à população Arquivo pessoal A professora doutora Soledad Palameta Miller foi presa em flagrante nesta segunda-feira (23), depois que a Polícia Federal encontrou as amostras virais em laboratórios da universidade aos quais a professora conseguiu acesso com o consentimento de outros pesquisadores. A defesa da docente afirma que não há materialidade na acusação e que ela utilizava os laboratórios do Instituto de Biologia por não possuir estrutura própria. A Polícia Federal (PF) informou nesta quarta-feira (25) que o marido da professora, Michael Edward Miller, também é investigado por suspeita de envolvimento no furto de amostras de vírus de um laboratório do Instituto de Biologia da Unicamp. Michael Miller é médico veterinário e faz doutorado em Genética e Biologia Molecular na universidade. A corporação não informou quais são as suspeitas sobre ele. O g1 tenta localizar a defesa dele. Infográfico mostra local de onde amostras de material biológico foram retiradas na Unicamp, e por quais crimes a professora Soledad Palameta Miller vai responder na Justiça Arte g1 Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp Estevão Mamédio/g1 VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas

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