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Interrupções, desconfiança e assédio: relatos mostram barreiras para mulheres jovens no trabalho

2026-03-08 - 09:23

Carolina Nucci e Mariam Tapeshashvili contam como driblaram os julgamentos na carreira g1 "Mocinha, com essa carinha, certeza que foi algum piloto que te deu essa credencial". Carolina Nucci ainda lembra da frase dita na entrada de uma coletiva de imprensa no autódromo de Interlagos. Ela era jornalista de automobilismo, estava escalada para cobrir o evento e tinha autorização para estar ali. Mesmo assim, antes de conferir o crachá, o fiscal decidiu questioná-la. Carolina explicou que trabalhava na cobertura. Não foi suficiente. Precisou acionar a chefia de imprensa — um homem — para confirmar que, sim, estava ali a trabalho. Naquele ambiente majoritariamente masculino, Carolina sentiu que precisava provar o tempo todo que não era uma "Maria Capacete", rótulo comum e pejorativo dado a mulheres que circulavam no paddock. A estratégia encontrada, ainda no início da carreira, foi simbólica. "No início da minha carreira, usei uma aliança falsa de compromisso para ser respeitada. Não inibiu, mas os assédios ficaram mais sutis", lembra. Veja os vídeos que estão em alta no g1 O episódio aconteceu duas décadas atrás, mas está longe de ser passado. Julgamentos sobre aparência, desconfiança sobre competência, menos oportunidades e episódios de assédio continuam fazendo parte da rotina de muitas mulheres, especialmente das mais jovens. Os relatos individuais encontram respaldo em números. O relatório Women in the Workplace, elaborado pela McKinsey & Company em parceria com a Lean In, ouviu 15 mil trabalhadores em diferentes países e traçou um panorama das desigualdades no ambiente corporativo. Entre as mulheres com menos de 30 anos, quase metade afirma que a idade já impactou negativamente suas oportunidades de trabalho. Outras 36% disseram que a idade foi fator na perda de aumentos, promoções ou chances de progressão. Entre os homens, esse percentual é de 15%. O reflexo aparece na liderança: em média, mulheres ocupam apenas 29% dos cargos de alta administração. Mariam Topeshashvili integra esse grupo que conseguiu chegar a uma posição de comando. Aos 29 anos, é gerente de uma agência internacional que conecta produtores de conteúdo e empresas. Nascida na Geórgia e criada em uma favela no Rio de Janeiro, construiu um currículo com formação na Universidade de Harvard. Ainda assim, ouviu questionamentos. "Já ouvi comentários irônicos, sarcásticos. Sempre velados. Frases que duvidavam da minha capacidade. Por exemplo, tal coisa não foi feita porque era eu que estava ali", conta. Ser jovem, mulher, estrangeira e falar em uma terceira língua compunha uma equação que, muitas vezes, a colocava em posição de constante avaliação. "Eu me sentia um patinho fora d’água. Muitas vezes tinha a sensação de que não era ouvida" Mariam Topeshashvili enfrentou julgamentos e microagressões ao longo de sua vida acadêmica e profissional Mariam Topeshashvili/ Arquivo Pessoal O estudo Women in the Workplace aponta que essas percepções não são isoladas. Microagressões — comentários ou atitudes sutis que colocam em dúvida a competência — fazem parte da rotina de muitas profissionais. 💬 Microagressões são ações ou comentários que desqualificam, discriminam ou questionam de forma sutil determinados grupos. 💬 Etarismo é preconceito ou discriminação contra pessoas por causa da idade. Ele pode se manifestar pro meio de atitudes, estereótipos e exclusão social ou profissional. Segundo o levantamento: 39% das mulheres já foram interrompidas enquanto falavam; 38% tiveram sua área de especialização questionada; 18% foram confundidas com alguém de nível hierárquico inferior; 37% afirmam ter sofrido uma ou mais formas de assédio sexual ao longo da carreira. Além disso, o relatório destaca que mulheres jovens relatam maior incidência de comentários sobre idade, aparência e suposta falta de experiência. Uma pesquisa da Todas Group e da Nexus aponta um padrão semelhante. Entre 1.534 lideranças femininas entrevistadas, 56% dizem que uma das atitudes mais importantes que homens poderiam tomar é interromper falas machistas de outros colegas. Apesar disso, apenas 35% das mulheres afirmam já ter sido defendidas por um homem em situações de preconceito de gênero no ambiente de trabalho. As barreiras não se restringem a um único fator. Elas envolvem machismo estrutural e também etarismo — preconceito baseado na idade. Para Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, a diferença de tratamento é perceptível. "Os homens não são tão julgados quanto as mulheres. Quando um homem jovem é promovido, a reação costuma ser de admiração. Quando é uma mulher, muitas vezes há questionamento". Carolina percebeu isso em diferentes momentos da trajetória. Depois do jornalismo, decidiu estudar engenharia química e ouviu que “não era lugar de menina”. Mais tarde, ao migrar para o marketing, enfrentou novos episódios. "Sempre me viam como uma menina. Não era levada a sério (...) Descobri que meus sócios ganhavam mais e ouvi de outra mulher que eles precisavam mais, porque eram pais de família", conta Carolina, que hoje é CMO e cofundadora da Conectas, empresa de educação corporativa. No início da carreira de jornalista, Carolina Nucci usava uma aliança falsa e mudou sua aparência Carolina Nucci/ Arquivo Pessoal Ela também notou diferença no tratamento ao falar sobre maternidade. “Perguntavam com quem minha filha ficava quando estava doente. Para o meu marido diziam que ‘a paternidade engrandece o homem’.” Impacto na carreira O levantamento da McKinsey & Company e da Lean In mostra ainda que mulheres que enfrentam microagressões frequentes têm maior probabilidade de se sentirem esgotadas, considerar deixar o emprego e perceber o ambiente como injusto. Esse efeito ajuda a explicar outro fenômeno citado no estudo: o "degrau quebrado". O termo descreve a dificuldade que mulheres enfrentam para conquistar a primeira promoção para cargos de liderança. Quando essa etapa não acontece de forma proporcional, a desigualdade se amplia nos níveis mais altos da hierarquia. Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, e Dhafyni Mendes, cofundadora do Todas Group, aconselham mulheres que sofrem julgamentos no trabalho Arquivo Pessoal Dhafyni Mendes, cofundadora do Todas Group, afirma que interrupções constantes e desvalorização de ideias afetam a segurança psicológica. “Mulheres que são frequentemente interrompidas e cujas opiniões são ignoradas — mas depois valorizadas quando repetidas por outros — tendem a ter o desempenho impactado.” Para Mariam, esse processo pode levar à autossabotagem. “Você começa a se questionar. Eu chegava em casa e pensava: será que mereço o cargo que tenho? Será que faz sentido estar ali?” O estudo também aponta que ambientes percebidos como injustos aumentam a taxa de demissão voluntária entre mulheres, além de contribuírem para casos de esgotamento profissional. Outro ponto destacado pela pesquisa da Todas Group e da Nexus é que parte da resistência em enfrentar o problema pode estar na própria percepção de desigualdade. Para 51% das mulheres entrevistadas, muitos homens acreditam que já existe igualdade no ambiente corporativo, enquanto 45% dizem que eles enxergam o debate sobre gênero como exagero. Denúncia, rede e estratégia Diante desse cenário, as entrevistadas defendem posicionamento. “Não deixe essas situações passarem. Informe seu gestor. Outras pessoas podem estar vivendo o mesmo”, orienta Mariam. Carolina compartilha reflexão semelhante. "Quando olho para trás, penso: por que não denunciei? Precisamos mostrar que isso é errado". Além da denúncia, as entrevistadas destacam a importância de mentoria, redes de apoio e planejamento de longo prazo. “Às vezes você é uma das poucas que conseguiu chegar ali — e isso pode abrir caminho para outras”, diz Mariam. "Tenha um plano e mantenha comunidades de apoio. Mulheres não competem, se ajudam", afirma Carolina. Para Ana Fontes, a busca constante por conhecimento também é parte da estratégia. "Leia sobre o mercado em que atua, amplie sua visão. Demonstrar preparo e confiança influencia a forma como você é percebida", conclui.

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