TheBrazilTime

Indígena faz sucesso nas redes ao compartilhar saberes tradicionais: 'Sem esquecer de onde vim'

2026-03-02 - 08:14

Indígena faz sucesso nas redes ao compartilhar saberes tradicionais Influenciador indígena, estudante de jornalismo e técnico em enfermagem. Esse é o currículo do roraimense Kállisson Wapichana, de 22 anos. O jovem, cujo nome artístico revela o povo ao qual pertence, transforma saberes tradicionais em conteúdo digital e conquistou mais de 200 mil seguidores nas redes sociais. Nos vídeos gravados na própria comunidade, Kállisson ensina desde depilação natural com cinzas, uso das folhas de caimbé, planta comum do lavrado de Roraima, para arear panelas e recuperar o brilho, até uma versão do hino nacional brasileiro na língua Wapichana. O conteúdo também aborda práticas da medicina e alimentação indígena. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 RR no WhatsApp Presente no Instagram desde 2022, Kállisson nunca enfrentou o chamado "flop". Logo no primeiro post, o conteúdo alcançou cerca de 10 mil visualizações. Atualmente, o perfil soma mais de 32 milhões de visualizações no total. No TikTok, são 2,3 milhões de curtidas. "Fico feliz com esse sucesso e entendo que traz uma grande responsabilidade porque nada disso é apenas sobre mim, mas sobre meu povo e minha história. Vejo que cada vídeo e cada pessoa que chega representa uma oportunidade de mostrar que a cultura indígena é viva, atual e diversa", disse, sobre o alcance. Os vídeos são sempre com trilha sonora de carimbó e gravados na comunidade Canauanim, na Serra da Lua, município do Cantá, região em que Kállisson nasceu e onde família dele mora. Os conteúdos compartilhados foram aprendidos ainda na infância com a avó materna, responsável por ensiná-lo sobre banhos, chás e remédios caseiros. Influenciador indígena, o roraimense Kállisson Wapichana, de 22 anos. Arquivo "Quando a gente mesmo conta a nossa história, não é outra pessoa falando por nós. Sou eu mostrando a minha vivência, minha cultura", disse. Até o "segredo do cabelo pretinho indígena" Kállisson levou para as redes sociais e mostrou que o principal ingrediente é o jenipapo. Ele conta que a proposta é mostrar que os cuidados tradicionais utilizam elementos da natureza, são simples e "nada caro". "É algo sustentável. O que a gente tira da natureza volta pra natureza sem matar ela. Dá pra usar e depois devolver aquilo como adubo, por exemplo. É um ciclo". 🔍 O suco do jenipapo escurece ao ser exposto ao ar, atingindo tons azulados ou pretos. O produto é tradicionalmente utilizado pelos povos indígenas na pintura corporal. Conteúdo digital como ferramenta de valorização da cultura indígena Além das receitas, Kállisson compartilha termos da língua Wapichana, produção de farinha, de artesanatos e o uso do tipiti — prensa feita de palha trançada, tradicionalmente usada para espremer a massa da mandioca — no tratamento de braço quebrado. Também responde às perguntas dos seguidores. O interesse do público, seja por curiosidade ou resgate cultural, representa para ele uma forma de enfrentar o preconceito. "Todo mundo passou por um processo de colonização. Quem mora na cidade, inclusive eu, sente falta da vivência dentro da comunidade", disse, acrescentando: "Criar conteúdo na internet é uma forma de enfrentar o racismo e o preconceito que existem contra os povos indígenas". Os vídeos são sempre acompanhados de um carimbó como trilha sonora, e filmados na comunidade Canauanim, localizada na Serra da Lua. Arquivo O sonho da universidade e a mudança para a capital O jovem se mudou para Boa Vista há quatro anos para cursar Jornalismo na Universidade Federal de Roraima, graduação que iniciou apenas em 2024. Ao longo do curso, percebeu que a influência que tinha nas redes sociais se conectava com a função e passou a profissionalizar os conteúdos. "Penso em me formar em Jornalismo e seguir nesse caminho: sendo um ativista e jornalista indígena. Depois, quero focar mais na área do audiovisual e do cinema. Mas, agora, quero terminar a faculdade e seguir nisso por enquanto". Com a visibilidade nas redes, Kállisson passou a ser convidado para trabalhos e viagens. No ano passado, participou da COP30, em Belém, e integrou uma organização de comunicação indígena. "Viajar, mostrar o teu trabalho, falar do que tu gosta e mostrar de verdade como é a cultura indígena. A gente fica muito feliz". Ele pondera que, com a repercussão do conteúdo e o crescimento do público, o reconhecimento também traz responsabilidade. "Celebro, sim, mas sem esquecer de onde vim, de quem veio antes de mim e por quem falo", frisou. Leia outras notícias do estado no g1 Roraima.

Share this post: