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Guerra no Irã causa racha nos Brics: Brasil, China e Rússia condenam ataques e divergem de Índia e árabes do bloco

2026-03-03 - 09:43

O ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã e as retaliações seguintes do regime de Teerã, ocorridos nos últimos dias, tiveram repercussões divergentes entre países dos Brics. O bloco é formado por: Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Egito, Etiópia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia. Enquanto o Brasil, China e Rússia condenaram, oficialmente, a ação conjunta entre norte-americanos e israelenses iniciada no sábado (28/2), outros integrantes do grupo, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Índia, pouparam os bombardeios de Israel e EUA e condenaram, por sua vez, os ataques com mísseis realizados pelo Irã contra bases norte-americanas localizadas nos países do Golfo Pérsico. Um diplomata ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado afirma que, nos últimos dias, o governo brasileiro tem feito consultas junto a países do bloco, mas que, por ora, não haveria previsão de uma posição conjunta do bloco sobre o assunto. Em julho de 2025, quando o Irã também foi alvo de ataques aéreos dos Estados Unidos e Israel, os Brics chegaram a um acordo e divulgaram uma nota sobre o episódio. Um interlocutor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por sua vez, disse à BBC News Brasil não acreditar que o bloco vá adotar algum tipo de posição conjunta sobre o assunto. Segundo ele, fatores como as atuais dimensões da crise e a liderança indiana do bloco, neste ano, inviabilizariam um posicionamento semelhante ao do ano anterior. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que a atual crise no Irã expõe contradições do processo de expansão do grupo e coloca em xeque a capacidade de ação coletiva de um grupo de países com interesses geopolíticos tão distintos. Ataques, reações e divisão A mais recente crise no Oriente Médio começou no sábado, quando Estados Unidos e Israel iniciaram uma série de ataques aéreos a alvos iranianos. Os ataques atingiram prédios oficiais e alvos civis e mataram o então líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Além dele, outros três oficiais do alto comando do governo iraniano também teriam sido mortos. O presidente norte-americano, Donald Trump, justificou os ataques afirmando que eles tinham o objetivo de eliminar "ameaças iminentes do regime iraniano" e que o país havia tentado reconstruir o seu programa nuclear e continuaria a desenvolver um programa de mísseis de longo alcance que poderia ameaçar países europeus e, em breve, os Estados Unidos. O regime iraniano, porém, rebate essas acusações e afirma que seu programa nuclear tinham fins pacíficos. Como resposta, o Irã disparou uma série de mísseis em direção a Israel e a instalações norte-americanas situadas em países do Golfo Pérsico como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Kuwait. Desde então, o conflito atingiu outros países como a Síria e o Líbano, de onde o grupo Hezbollah disparou mísseis sobre Israel na segunda-feira (2/3). Em meio a esse cenário, as respostas diplomáticas dos integrantes dos Brics refletiram suas divisões internas. O Brasil, por meio do Ministério das Relações Exteriores (MRE), emitiu duas notas sobre o episódio. Na primeira, ainda no sábado, o governo brasileiro condenou a ação israelense e norte-americana. "O Governo brasileiro condena e expressa grave preocupação com os ataques realizados hoje (28/2) por Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã. Os ataques ocorreram em meio a um processo de negociação entre as partes, que é o único caminho viável para a paz, posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região", disse a nota. Na segunda-feira, o Brasil divulgou uma nova nota sobre a situação no Oriente Médio na qual condenou os ataques promovidos pelo Irã. "O Brasil insta todas as partes a respeitar o Direito Internacional e condena quaisquer medidas que violem a soberania de terceiros Estados ou que possam ampliar o conflito, tais como ações retaliatórias e ataques contra áreas civis (...) o Brasil se solidariza com a Arábia Saudita, o Bahrein, o Catar, os Emirados Árabes Unidos, o Iraque, o Kuwait e a Jordânia — objetos de ataques retaliatórios do Irã em 28 de fevereiro", disse a nota. Nesta segunda-feira, em entrevista à Globo News, o assessor especial para assuntos internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), embaixador Celso Amorim, também condenou os ataques ao Irã. "Ninguém é juiz do mundo. Matar um líder de um país, que está em exercício, é condenável e inaceitável. Devemos nos preparar para o pior", disse o diplomata. Rússia e China, por outro lado, que possuem uma relação mais estreita com o regime iraniano, também condenaram os ataques ao Irã. A Rússia possui vínculos militares com o Irã e o país do Oriente Médio é um dos fornecedores de drones usados pelos russos na guerra da Ucrânia. A China, por sua vez, é um dos principais compradores de petróleo iraniano. Usando termos mais fortes, o presidente russo, Vladimir Putin, classificou os ataques e a morte de Khamenei como uma "violação cínica de todas as normas de moralidade humana e do direito internacional", de acordo com a agência de notícias russa Tass. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, também condenou o ataque ao Irã. "O ataque e a morte do líder supremo do Irã é uma grave violação da soberania e segurança do Irã (...) A China se opõe firmemente e fortemente condena (os ataques)", disse. A Índia não condenou os ataques de sábado. Sob o governo de Narendra Modi, o país, que há décadas teve em Israel um parceiro chave no suprimento de armas e munição, principalmente durante os vários conflitos armados com o Paquistão, estreitou ainda mais a relação. Em 2017, Modi se tornou o primeiro premiê indiano a visitar Israel. "A Índia está profundamente preocupada com os recentes acontecimentos no Irã e na região do Golfo. Urgimos todos os lados para exercitar a contenção, evitar a escalada e priorizar a segurança dos civis", diz um trecho da nota divulgada pelo Ministério de Assuntos Exteriores da Índia. Na segunda-feira, porém, Modi usou suas redes sociais para condenar os ataques conduzidos pelo Irã a bases localizadas nos países árabes. "A Índia condena os recentes ataques à Arábia Saudita em violação da sua soberania e integridade territorial", disse o premiê em seu perfil no X (antigo Twitter). Outro interlocutor do presidente Lula disse à BBC News Brasil em caráter reservado que a dimensão da crise iniciada na semana passada é diferente da dos ataques ocorridos em julho de 2025. Segundo ele, no ano passado, as reações do Irã aos ataques norte-americanos e israelenses foram calculadas de forma a não causar baixas significativas a Israel, país que concentrou as retaliações iranianas naquela ocasião. Desta vez, ele argumenta, as retaliações iranianas atingindo alvos em países árabes, entre eles integrantes dos Brics como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, praticamente impossibilitam uma resposta coletiva do bloco. Segundo ele, outro motivo pelo qual o Brasil não espera uma resposta conjunta é a liderança indiana. Neste ano, a presidência rotativa do bloco é exercida pela Índia — que tem ligações históricas tanto com os EUA quanto com Israel. Na semana passada, por exemplo, Modi fez uma visita ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Contradições à mostra Para a professora de Relações Internacionais da PUC do Rio de Janeiro, Ana Elisa Saggioro Garcia, a crise envolvendo o Irã testará a a capacidade dos Brics de agir de forma coordenada. "Os ataques expõem as contradições e os riscos envolvidos no processo de expansão dos Brics (iniciado) em 2023. Essa expansão, que trouxe países do Oriente Médio, deu mais representatividade para o grupo, mas também trouxe riscos. A presença do Irã sempre foi um ponto de tensão dentro do grupo", diz a professora à BBC News Brasil. "Não há expectativa do Brics se tornar um grupo que possa agir de forma coletiva nessas situações". Segundo ela, a falta de uma posição coordenada dos Brics sobre o assunto reflete os interesses específicos dos principais integrantes do grupo. Os países árabes, por exemplo, por mais que sejam de maioria islâmica, têm relações conturbadas com o Irã. Além disso, os sauditas, egípcios e os Emirados Árabes Unidos são tradicionais aliados dos Estados Unidos na região. A Índia, por sua vez, tem uma relação próxima com Estados Unidos, Rússia e Israel. Segundo ela, a crise no Irã deixou claro que os Brics estariam longe de uma aliança nos moldes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que une países da Europa, Estados Unidos e Canadá. "Eles (a Otan) conseguiram criar um sistema de segurança coletiva no qual, se um é atacado, os outros defendem. Os Brics não são isso, não serão em um período visível de tempo e nem desejam ser", afirma. Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e integrante do think tank Brics Policy Center, Pablo Ibanez, a falta de coesão do bloco em torno dos acontecimentos no Oriente Médio também se deve ao papel exercido por Donald Trump no cenário internacional. "Os Brics se enfraqueceram com a chegada de Trump ao poder. Isso não se deve, necessariamente, a ele ter feito algo diretamente ao grupo, mas a forma como ele atua obrigou os países a mudarem suas estratégias", diz o professor. A avaliação é de que medidas como o tarifaço imposto por Trump a diversos países no ano passado, inclusive sobre o Brasil, obrigou diversas nações a procurarem soluções de forma individual para os obstáculos criados pelos norte-americanos. Ibanez avalia que, a atuação "imprevisível" dos Estados Unidos sob o comando de Trump vem obrigado os países do bloco a tirarem os Brics do foco. É como, segundo ele, cada país estivesse tendo que atuar sozinho e não mais em bloco. "O que se observa é que os Brics estão deixando de estar na centralidade da política externa. O fato de não termos, até agora, uma manifestação conjunta do bloco sobre a crise no Irã é uma demonstração dessa perda de importância dos Brics para agenda dos países do bloco", avalia.

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