'Fura fila' de bariátrica no HC: hospital encontrou ao menos 49 casos e formou comissão para novas cirurgias
2026-03-27 - 10:10
MP denuncia dois médicos do HC da Unicamp por irregularidades no setor de bariátricas O Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, em Campinas (SP), encontrou ao menos 49 casos de pacientes de uma empresa que fizeram pré-operatório para terem acesso a cirurgias bariátricas, sem antes terem passado pela fila do Sistema Único de Saúde (SUS). Parte desses atendimentos, realizados entre 2019 e 2023, resultou em "encaixes" na unidade de saúde. Por conta dessa investigação, a superintendência da unidade de saúde criou uma comissão para analisar novos procedimentos cirúrgicos e evitar irregularidades. O grupo foi formado em 2024, quando a sindicância ainda estava ocorrendo. O g1 procurou o HC e aguarda resposta. Nesta terça-feira (24), o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) denunciou os médicos Felipe David Mendonça Chaim e Elinton Adami Chaim, que trabalham no hospital, por supostamente terem liderado o esquema de "fura fila". ✅ Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp Felipe, além de servidor, é sócio-proprietário da empresa que atendia os pacientes nas cidades. Essa entidade privada manteve contratos com prefeituras, entre elas a de Indaiatuba (SP), para atendimento de casos de obesidade. Já Elinton, pai de Felipe, era chefe do ambulatório de obesidade do HC e responsável pelo agendamento de cirurgias no local. Ele teria viabilizado "encaixes" a pacientes da empresa do filho no hospital público. Elinton e Felipe teriam liderado esquema de "fura fila" do SUS Reprodução/EPTV Casos de 'fura fila' O esquema possibilitava que os pacientes da CHM Serviços Médicos Ltda, que pertencia a Felipe e sua esposa, "furassem a fila" do SUS. Por conta do HC ser um hospital público, o trâmite correto seria fazer o atendimento das pessoas e, quando estivessem liberadas para cirurgia, entrassem na fila da Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross), vinculada ao SUS. A fila anda conforme a urgência do procedimento, além da disponibilidade de leitos e de médicos. No fim de 2024, a Cross informou ao MP que 458 pessoas aguardavam avaliação para cirurgia bariátrica. 🔎 O que é a cirurgia bariátrica? Há diversos tipos de procedimentos. Porém, em geral, é uma cirurgia que "grampeia" ou remove parte do estômago para reduzir o seu tamanho e a sua capacidade de absorção ou de receber alimentos. A intervenção ajuda os pacientes a perder peso e deixar um quadro de risco à vida (obesidade mórbida). As irregularidades no HC foram investigadas, entre 2023 e 2024, tanto pelo MP quanto por uma sindicância aberta pela Unicamp. Enquanto a universidade realizou oitivas e levantamentos, o ministério encaminhou questionamentos à superintendência do hospital. Inicialmente, a unidade de saúde encontrou, de 2019 a 2023, 55 pré-operatórios realizados em pacientes com obesidade de Indaiatuba e de Monte Sião (MG). No caso de Indaiatuba, foram 47, sendo que apenas três passaram pela fila da Cross. Já de Monte Sião foram oito e nenhum deles foi encaminhado pela Cross. Em fevereiro de 2024, o HC realizou um refinamento desses dados e fechou 49 casos de "fura fila", sem mencionar a quantidade por cidade. Parte desses atendimentos resultou em "encaixes" na unidade de saúde, que teriam sido viabilizados por Elinton. "Observamos que esses pacientes foram encaminhados por um grupo multidisciplinar das cidades de Indaiatuba, Águas de Lindóia (moradores de Indaiatuba) e Monte Sião, após convocação pelo Dr. Felipe Chaim, médico cirurgião contratado em nossa instituição, com anuência do chefe do serviço de cirurgia bariátrica, Prof. Dr. Elinton Chaim", apontou o HC. Preferência a Indaiatuba e conclusão de sindicância A Unicamp levantou que houve um aumento de atendimentos (pré-operatórios) e cirurgias bariátricas a pacientes de Indaiatuba, onde a CHM tinha contrato para atender pessoas com quadro de obesidade. De 2010 a 2017, antes de Felipe ser contratado como servidor no HC — o que ocorreu em 2018 —, 13 pacientes de Indaiatuba passaram por cirurgia bariátrica. Por sua vez, de 2018 a 2023, foram contabilizados 15 casos. O número é maior mesmo considerando que apenas procedimentos emergenciais foram realizados entre 2020 e 2022, por conta da pandemia da Covid-19. Número de cirurgias bariátricas a pacientes de Indaiatuba no HC Já os pré-operatórios tiveram ápice em 2022 com 35 — quantidade que representou 12,3% do total de atendimentos naquele ano, sendo que esse percentual variou de 0% a 4,2% em anos anteriores. "Após análise de depoimentos e de documentos anexados, pode-se afirmar que a denúncia é procedente. Houve preferência aos pacientes dos grupos externos de determinadas cidades na admissão pelo Ambulatório de Obesidade do HC-Unicamp e na escalação para realização de cirurgia de obesidade no HC-Unicamp", concluiu a sindicância. A Prefeitura de Indaiatuba não tinha qualquer parceria com o hospital ou com a universidade. Em nota, o município informou que não mantém mais contrato com a CHM e destacou que, durante a vigência contratual, não foram identificadas irregularidades na prestação dos serviços. A Unicamp instaurou dois Processos Administrativos Disciplinares para investigar o esquema. As apurações já foram concluídas, e Felipe foi suspenso por 10 dias e Elinton foi absolvido. Comissão para novas cirurgias Cirurgias bariátricas aconteciam no HC da Unicamp Reprodução/EPTV Após ser cobrada pelo MP em 2024, a superintendência do HC adotou medidas para analisar novos procedimentos e evitar irregularidades: Formação de uma Comissão Estratégica de Acesso Responsável a Casos Novos (CEARC) para analisar novos procedimentos e evitar irregularidades; Criação um banco de dados para controle de acesso ao HC; Funcionários passaram por treinamentos e capacitações com a Cross; Ampliação da oferta de vagas de 390 para 420 vagas semanais; Elaboração um plano para padronizar o atendimento a casos cirúrgicos; Implementação de política para visitação de pacientes. Denúncia O MP estimou que os suspeitos ganharam R$ 1,4 milhão com o esquema. O promotor Daniel Zulian pediu, em caráter liminar, o bloqueio de bens dos investigados correspondente ao valor levantado e que sejam afastados dos cargos que ocupam no HC. Também em relação aos investigados, Zulian solicitou que, ao fim do processo: Sejam condenados por improbidade administrativa; Percam bens bloqueados; Percam funções públicas; Percam direitos políticos por 14 anos; Sejam obrigados a pagar multa civil a ser calculada; Sejam condenados a pagar R$ 432 mil por danos morais coletivos. Os pedidos ainda serão analisados pela Justiça. O que diz a defesa dos médicos Os doutores [Elinton] Chaim e Felipe ainda não foram citados no processo movido pelo Ministério Público. Isso significa que eles não têm conhecimento do teor das alegações do promotor. Então, não podemos nos manifestar sobre os fatos. Se os fatos alegados na petição forem exatamente os mesmos que foram deduzidos nos Procedimentos Administrativos Disciplinares da Unicamp, vamos reiterar nosso posicionamento. Somos completamente convictos nesses argumentos que, no final das contas, inclusive no relatório final, ficou reconhecido que não houve prejuízo à fila Cross e que não houve preterição a outros pacientes do SUS. Nós vamos nos manifestar no momento oportuno, durante o processo. Antes disso, a gente sequer poderia se manifestar sobre esses fatos. Sobre a questão dos procedimentos da Unicamp, não há atendimento preferencial. A empresa do doutor Felipe não faz encaminhamento à Unicamp. Quem faz o encaminhamento é a secretaria municipal, então ele presta serviços para programas municipais. Ele entrou nesse programa por meio de uma licitação pública. Na Unicamp, não tem qualquer tipo de preferência. Existe a fila da Cross, que a gente sabe que sempre foi muito deficitária, com muitos problemas de chamamento. Inclusive, já tem posicionamento que deixa bem claro que, para casos de cirurgia bariátrica, não existe uma fila cronológica porque depende do preparo do paciente. Tiveram vários casos, de várias cidades atendidas na Unicamp. Cidades onde o doutor Felipe não prestava serviço. E a quantidade desses pacientes que fazem a cirurgia aumentam na medida em que eles são melhor preparados. Então, o paciente entraria na fila, que seguiria um cronograma, vamos supor, de "x" semanas, e quando ele vem de outro lugar, ele já vem preparado. Ele entra na fila, como todo mundo, e não direto para cirurgia. VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e Região