EUA caminham rapidamente para a autocracia, alerta entidade que monitora a saúde da democracia no mundo
2026-03-23 - 15:00
Presidente Donald Trump fala com a imprensa antes de deixar a Casa Branca e voar para a Flórida, em 20 de março de 2026. Reuters/Nathan Howard Uma das mais respeitadas entidades que monitoram o estado da democracia no mundo — o Instituto Variedades da Democracia (V-Dem) — atesta: os EUA estão caminhando para a autocracia num ritmo mais rápido do que a Hungria e a Turquia. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp O país presidido por Donald Trump ganha destaque no relatório anual do instituto sueco, vinculado à Universidade de Gotemburgo, por ter perdido o status de democracia liberal, pela primeira vez em mais de meio século. Em apenas um ano, a pontuação dos EUA caiu 24%, e a sua classificação mundial despencou do 20o para o 51o lugar, entre 179 nações. “O atual governo dos EUA tem minado os mecanismos institucionais de controle e equilíbrio, politizado o funcionalismo público e os órgãos de fiscalização, e intimidado o Judiciário, além de atacar a imprensa, a academia, as liberdades civis e as vozes dissidentes”, resume o fundador do V-Dem, Staffan Lindberg, A escala de regressão democrática nos EUA de Trump está no grau severo, assinala o pesquisador, que cita exemplos contundentes para justificar o argumento da velocidade da autocratização no país: o presidente americano pareceu alcançar em apenas um ano o que Viktor Orbán levou quatro anos na Hungria, Aleksandar Vučić, oito na Sérvia, e Recep Tayyip Erdogan e Narendra Modi, cerca de uma década na Turquia e na Índia — a supressão das instituições em seus países. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Segundo o documento intitulado “Desmantelando a era democrática”, o segundo mandato de Trump pode ser resumido como uma rápida e agressiva concentração de poderes na presidência. O nível de democracia regrediu ao mesmo nível de 1965 com um agravante: todo o progresso alcançado desde então pelo movimento pelos direitos civis foi perdido, de acordo com o estudo do V-Dem. Os pesquisadores liderados por Staffan Lindberg avaliam a situação da democracia baseados em 48 indicadores, entre os quais a liberdade de expressão e imprensa, a qualidade das eleições e o respeito ao Estado de Direito. O documento intitulado “Desmantelando a era democrática” constata que o segundo mandato de Trump pode ser resumido como uma rápida e agressiva concentração de poderes na presidência. “Em 2025, o Congresso controlado pelos republicanos parece ter abdicado de seu papel constitucional em favor do poder Executivo, cedendo poderes legislativos, fiscais e de supervisão”, diz o relatório. No primeiro ano deste segundo mandato, Trump assinou 225 decretos. Em contrapartida, o Congresso aprovou apenas 49 leis. “Na prática, o Congresso permitiu que o governo Trump marginalizasse a sua autoridade.” Outro ponto importante assinalado pelo V-Dem é o da Suprema Corte, que também contribuiu para ampliar a autoridade do Executivo. O relatório aponta a fragilização do Judiciário e observa que no primeiro dia de mandato, o presidente Trump perdoou 1.500 criminosos condenados pelo ataque de 6 de janeiro no Capitólio, “minando assim a legitimidade dos tribunais e possivelmente dando um endosso tácito à violência futura”. O declínio da democracia nos EUA no último ano abarca também o retrocesso na retirada das proteções aos direitos civis, nos ataques a jornalistas e às universidades. A liberdade de expressão está em seu nível mais baixo desde a década de 1940, aponta o relatório. Os indicadores eleitorais não sofreram alteração porque em 2025 não houve votações nacionais. Neste contexto, na avaliação de Lindberg, as eleições de meio de mandato, em novembro, que renovarão parte do Congresso, serão um teste crucial para a saúde da democracia no país.