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Estudo da Fiep aponta queda do PIB e risco de desemprego com fim da escala 6x1

2026-03-10 - 21:43

"A escala 6x1 é um debate que, na minha visão, vai ser fundamental para a eleição de 26", diz Nunes Paulo Pinto/Agência Brasil via BBC Um estudo divulgado nesta terça-feira (10) pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), em parceria com a Tendências Consultoria, alerta para possíveis efeitos negativos da proposta de redução da jornada semanal de trabalho no Brasil. Segundo o levantamento, a mudança em discussão no Congresso — que pode reduzir a jornada de 44 para 36 horas semanais e acabar com a escala 6x1 — pode provocar queda do Produto Interno Bruto (PIB), aumento do desemprego e avanço da informalidade. A análise foi apresentada em Brasília durante o seminário “Modernização da jornada de trabalho”. O encontro reuniu parlamentares, especialistas e representantes do setor produtivo para discutir mudanças nas regras de trabalho no país. De acordo com o estudo, reduções abruptas de jornada costumam provocar efeitos negativos na economia no curto prazo e não garantem a criação de novos empregos. As simulações feitas pela Tendências indicam que, mesmo em um cenário considerado otimista, o impacto seria relevante. Nesse cenário, a economia teria um ganho de produtividade de 2%. Ainda assim, o PIB brasileiro cairia até 3,7% no primeiro ano após a mudança na jornada. No horizonte de cinco anos, a queda acumulada poderia chegar a 4,9%. O relatório destaca que esse cenário positivo é considerado pouco provável. Isso ocorre porque a produtividade do trabalho no Brasil permanece praticamente estagnada há cerca de três décadas. O estudo também reúne pesquisas nacionais e internacionais sobre redução da jornada. Em muitos desses casos, a economia registrou queda de atividade sem aumento significativo de empregos. Algumas simulações citadas apontam que o PIB poderia recuar entre 6,8% e 8,1%, dependendo do nível de produtividade e das reações das empresas. Até 1,5 milhão de trabalhadores podem ser afetados O levantamento também projeta impactos sobre o mercado de trabalho. Segundo a Fiep, a redução da jornada sem aumento proporcional da produtividade pode elevar custos para as empresas. Como reação, parte delas poderia reduzir contratações ou demitir trabalhadores. O estudo estima que até 1,5 milhão de trabalhadores formais podem enfrentar risco de demissão ou migração para a informalidade. Pesquisas internacionais analisadas no relatório mostram que, diante da redução de horas, empresas costumam adotar algumas estratégias: diminuir o número de horas contratadas; substituir trabalhadores mais experientes por profissionais com salários menores; aumentar a rotatividade da mão de obra. Renda pode não aumentar Outro efeito apontado pelo estudo envolve o rendimento dos trabalhadores. A redução da jornada pode elevar o salário por hora trabalhada. No entanto, o salário mensal tende a permanecer estável caso as empresas reduzam as horas contratadas. Nesse cenário, cresce também a chamada dupla ocupação. Isso ocorre quando um trabalhador precisa ter dois empregos para manter o mesmo nível de renda. A literatura científica mostra que jornadas menores podem trazer alguns benefícios. Entre eles estão a redução da fadiga e um possível aumento de produtividade. Trabalhadores descansados tendem a produzir mais em determinadas atividades. Mas o relatório ressalta que esses ganhos costumam ser modestos e concentrados em alguns setores. Em muitos casos, eles não são suficientes para compensar a redução do tempo de trabalho. Diferenças entre setores A Fiep afirma que a indústria brasileira possui realidades muito diferentes. Alguns segmentos operam com alto nível de automação e margens maiores. Outros dependem fortemente de mão de obra e enfrentam concorrência internacional intensa. Uma mudança uniforme na jornada poderia aumentar custos para empresas com menor margem de lucro. Isso pode reduzir investimentos e afetar empregos. Para a entidade, o risco é transformar uma medida voltada ao bem-estar do trabalhador em um fator de instabilidade econômica. Debate precisa considerar produtividade A federação defende que a modernização das relações de trabalho é necessária. No entanto, avalia que mudanças devem ocorrer com negociação coletiva e adaptação às características de cada setor. O estudo também destaca que o Brasil precisa avançar primeiro em políticas de aumento da produtividade. Entre as medidas citadas estão: modernização tecnológica das empresas; qualificação contínua dos trabalhadores; políticas industriais focadas; melhora do ambiente de negócios; acesso a crédito; simplificação tributária. Segundo a entidade, sem avanços nessas áreas, a redução da jornada pode gerar efeitos econômicos negativos. Metodologia usada por bancos centrais Para estimar os impactos da mudança na jornada, a Tendências utilizou um modelo econômico chamado DSGE. Esse tipo de modelo é amplamente empregado por bancos centrais e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para simular cenários macroeconômicos. Os pesquisadores analisaram dois cenários: um com ganho de produtividade e outro sem avanço significativo nessa área. Nos dois casos, os resultados indicaram impacto negativo para o emprego e para a atividade econômica no curto prazo. Experiências internacionais O estudo também analisou experiências de redução de jornada em países como Alemanha, França, Portugal, Japão, Canadá, Bélgica e Eslovênia. Segundo o levantamento, muitos desses casos registraram: efeitos nulos ou negativos sobre o emprego; queda de produtividade quando o ganho não acompanhou a redução de horas; aumento de custos para as empresas. Apenas dois estudos internacionais encontraram efeitos positivos para geração de empregos. Mesmo nesses casos, os resultados foram considerados ambíguos. Setor produtivo defende debate técnico Para a Fiep, o debate sobre jornada de trabalho é legítimo e precisa avançar no país. A entidade afirma que está aberta à discussão, mas defende que as mudanças sejam feitas com base em dados técnicos e diálogo entre governo, empresas e trabalhadores. Segundo a federação, decisões estruturais sobre o mercado de trabalho precisam considerar os efeitos sobre crescimento econômico, competitividade e geração de renda.

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