Covid-19 grave aumenta risco de câncer de pulmão, diz estudo; vacinação pode mitigar efeito
2026-03-26 - 08:10
Mais de 11 mil pessoa morreram por covid-19 em MS desde 2020. Divulgação/SES Uma infecção grave por Covid-19 pode deixar marcas duradouras no organismo e aumentar o risco de câncer de pulmão anos depois. É o que indica um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, que começa a esclarecer como doenças respiratórias severas podem ter efeitos que vão além da fase aguda. A análise identificou que pessoas que precisaram ser hospitalizadas por causa da doença tiveram um risco 1,24 vez maior de desenvolver câncer de pulmão em comparação com aquelas que não passaram por quadros graves. Mas o que isso significa, na prática? Segundo o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, esse número pode ser traduzido de forma mais concreta. Em um grupo de pessoas com características semelhantes, seria esperado, por exemplo, cerca de 100 casos de câncer de pulmão ao longo do tempo. Entre aqueles que tiveram Covid grave, esse número sobe para aproximadamente 124 casos. Ou seja, são 24 casos a mais em um mesmo grupo comparável. “Quando a gente leva esse aumento para uma escala populacional, se torna significativo”, afirma Stefani. Ao mesmo tempo, ele pondera que o dado não significa que a maioria dessas pessoas vá desenvolver câncer. Trata-se de um aumento de risco, e não de uma certeza de que a doença vai acontecer. O que o estudo encontrou Os pesquisadores analisaram dados de pacientes e também realizaram experimentos em modelos animais. Em ambos os casos, o padrão foi semelhante: infecções respiratórias graves parecem alterar o ambiente do pulmão de forma persistente. Nos dados populacionais, o aumento de risco apareceu mesmo após o controle de fatores clássicos, como tabagismo e outras doenças associadas —o que reforça que o efeito está ligado à própria infecção. O que acontece no pulmão A explicação está na resposta inflamatória desencadeada pela doença. Casos graves de Covid-19 já eram conhecidos por provocar uma reação intensa do sistema imunológico, a chamada “tempestade inflamatória”. O novo estudo sugere que esse processo pode deixar sequelas. Após a infecção, células de defesa passam a funcionar de forma alterada e mantêm um estado inflamatório crônico no pulmão. Esse ambiente é descrito pelos cientistas como “pró-tumoral”, ou seja, favorável ao desenvolvimento de câncer. Além disso, foram observadas alterações nas células que revestem o pulmão, indicando um dano estrutural persistente. Na avaliação de Stefani, o processo combina dois fatores: inflamação prolongada e desregulação do sistema imunológico, o que pode facilitar o surgimento de tumores ao longo do tempo. Não é qualquer caso Um ponto importante é que o aumento de risco foi observado principalmente em casos graves, que exigiram hospitalização. Pessoas que tiveram infecções leves não apresentaram esse padrão. “Não foi todo paciente com Covid que teve esse efeito. Estamos falando de quadros graves”, explica Stefani. Veja os vídeos que estão em alta no g1 O que muda na prática Por enquanto, não há recomendação formal para rastreamento de câncer de pulmão apenas com base no histórico de Covid grave. Hoje, a triagem com tomografia de baixa dose é indicada principalmente para pessoas com alta carga tabágica. Mas o novo estudo pode influenciar futuras diretrizes. Na prática, especialistas recomendam atenção individualizada: quem foi hospitalizado por Covid-19 deve conversar com um médico para avaliar a necessidade de acompanhamento mais próximo da saúde pulmonar. Isso pode incluir avaliação clínica periódica, investigação de sintomas persistentes —como falta de ar e tosse crônica— e, em alguns casos, exames de imagem. Para quem já tem fatores de risco, como histórico de tabagismo, esse cuidado tende a ser ainda mais importante. A lógica é antecipar possíveis problemas. Quanto mais cedo um câncer é identificado, maiores são as chances de tratamento eficaz e menos agressivo. O papel da vacinação O estudo também trouxe um dado considerado encorajador: a vacinação parece reduzir significativamente os danos pulmonares associados às infecções graves, bloqueando parte das alterações que favorecem o desenvolvimento de câncer . Isso reforça um efeito indireto das vacinas: além de prevenir formas graves da doença, elas podem também reduzir consequências de longo prazo. O que ainda falta saber Apesar dos achados consistentes, os pesquisadores destacam que ainda são necessários mais estudos para entender a duração desse risco e quais pacientes são mais vulneráveis. A pandemia ainda é recente do ponto de vista científico —e os efeitos de longo prazo seguem em investigação. Para Stefani, esse é o ponto central. Segundo ele, a medicina ainda está aprendendo a lidar com as consequências tardias da Covid-19, o que exige cautela antes de transformar evidências em recomendações amplas.