Cidadania europeia: o que explica o aumento da procura
2026-03-28 - 13:20
Baixada em Pauta: Fábio Gioppo é o convidado da semana O interesse de brasileiros pela cidadania europeia tem crescido de forma consistente e revela um movimento que combina planejamento de vida, busca por estabilidade e reconexão com a história familiar. O fenômeno se intensifica em regiões como a Baixada Santista, marcadas pela forte presença de descendentes de imigrantes. O tema foi debatido no podcast Baixada em Pauta, apresentado pelo jornalista Matheus Müller, que recebeu o advogado Fábio Gioppo, especialista em direito internacional e imigração, para explicar as razões do aumento da procura e esclarecer as regras atuais para quem pretende iniciar o processo. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Santos no WhatsApp. Segundo Gioppo, a demanda acompanha momentos de instabilidade no Brasil e reflete diretamente nas decisões familiares, principalmente quando envolvem futuro profissional e segurança jurídica. “Toda vez que você tem uma mudança no governo, toda vez que você tem algum impacto na economia, é óbvio que a procura acaba aumentando muito mais”, disse. Além do contexto econômico e político, o advogado destacou que a cidadania deixou de ser vista apenas como um facilitador de viagens. Ela representa acesso a direitos, oportunidades educacionais, estrutura previdenciária e a possibilidade concreta de residir legalmente em outro país. Outro fator apontado é o resgate das origens familiares. Muitos brasileiros têm revisitado a própria história e identificado que o direito à cidadania europeia sempre existiu, mas nunca foi exercido por falta de informação ou orientação adequada. Regras da cidadania portuguesa Passaporte portugal Marta Branco / pexels A cidadania portuguesa segue um modelo administrativo e possui limite de gerações. O direito é transmitido a filhos e netos de portugueses. Para bisnetos, o reconhecimento só é possível se o ascendente direto (pai ou mãe, neto do português) tiver a cidadania reconhecida em vida. Caso esse elo se perca, o direito deixa de existir. Segundo Gioppo, trata‐se de uma situação irreversível. Do ponto de vista documental, o processo é menos complexo que o italiano. São exigidas, em regra, a certidão do ascendente português e as certidões do requerente. Os prazos variam: filhos podem obter a cidadania em meses, enquanto processos de netos podem levar anos. Os custos dependem da situação documental e da necessidade de busca de registros, mas, de forma geral, o investimento costuma ficar entre R$ 5 mil e R$ 8 mil. Regras da cidadania italiana Passaporte italiano BBC/Divulgação A cidadania italiana vive um momento mais sensível. Hoje, o reconhecimento ocorre exclusivamente pela via judicial, e uma nova lei italiana tenta impor restrições ao direito, atualmente questionadas por especialistas. Gioppo recomenda atenção redobrada. Segundo ele, “o momento agora é de cautela”. Por se tratar de um processo judicial, não há garantia absoluta de resultado, embora ainda existam decisões favoráveis. Diferentemente da portuguesa, a italiana, do ponto de vista jurídico defendido por advogados, não possui limite de gerações, pois é entendida como direito originário vinculado ao nascimento. Isso permite a reconstrução documental mesmo quando os registros são antigos ou incompletos. O custo do processo costuma ser mais elevado. Para um requerente individual, o investimento pode girar em torno de R$ 25 mil a R$ 28 mil, variando conforme a geração e a complexidade documental. Processos em grupo familiar reduzem o valor. Falta de documentos não impede processo A genética vem sendo usada na busca de informações sobre familiares BIBLIOTECA DE FOTOS CIENTÍFICAS via BBC A ausência de certidões não inviabiliza automaticamente um pedido de cidadania italiana. Segundo Gioppo, há um trabalho especializado de genealogia e pesquisa histórica que permite reconstruir a árvore familiar. Esse trabalho envolve análise de hábitos culturais, sotaques, costumes regionais e até fatores geográficos para identificar a origem do antepassado. Em muitos casos, nascimentos são comprovados por certidões de batismo, já que os registros civis eram tardios ou inexistentes no período da imigração. Também são frequentes erros de grafia nos documentos. Esses problemas exigem retificações administrativas ou judiciais antes do reconhecimento da cidadania.