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BRB só indicou 'movimentações suspeitas' do Master ao Coaf após Vorcaro ter sido preso; relação entre bancos começou em 2021

2026-03-17 - 19:50

Dono do Banco Master lucrou mais de R$ 440 milhões em operações suspeitas com fundos da Reag O Banco de Brasília (BRB) enviou um comunicado ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), no fim de 2025, apontando "operações suspeitas" envolvendo o Banco Master, do empresário Daniel Vorcaro. As informações, em um documento dividido em três partes, foram protocoladas no Coaf em 18 de novembro – um dia após Vorcaro ter sido preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos, tentando embarcar para Dubai. As relações entre o BRB e o Master começaram em 2021, segundo o próprio documento, e se intensificaram ao longo de 2024 e 2025. Ainda assim, até novembro, nenhum comunicado do tipo havia sido enviado ao Coaf. ➡️ O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) é uma unidade de inteligência financeira do governo federal que atua principalmente na prevenção e no combate à lavagem de dinheiro (crime que consiste na prática de disfarçar dinheiro de origem ilícita). ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 DF no WhatsApp. No informe enviado ao Coaf, o BRB diz ter identificado "movimentações incompatíveis com o perfil econômico e estruturas financeiras com dificuldade de identificação do beneficiário final" – o Banco Master. O g1 pediu mais informações ao BRB, mas não obteve resposta até o momento da publicação da reportagem. O comunicado do BRB analisa as transações envolvendo o Banco Master entre maio de 2024 e novembro de 2025. E cita pelo menos três fatores que indicam um possível esquema de lavagem de dinheiro: a data de criação dos fundos que compraram ações do BRB; a concentração do patrimônio desses fundos exclusivamente em ações do banco; a existência de um "cotista único" como responsável por esses fundos (veja detalhes abaixo). Ao longo de 2025, o BRB tentou comprar 58% das ações Banco Master por R$ 2 bilhões. A operação contava com o apoio do governo Ibaneis Rocha (MDB), mas foi barrada pelo Banco Central, que liquidou o banco na mesma data em que prendeu Vorcaro. O banqueiro foi preso no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraude financeira e lavagem de dinheiro envolvendo o Master. Fundos suspeitos A análise do BRB começa apontando um aumento de capital do banco que teria sido feito usando fundos suspeitos ligados ao Master e à Reag. A maior parte dos fundos tinha sido criada pouco tempo antes das transações com o BRB. De acordo com os relatório, o Borneo FIP Multiestratégia foi criado em 4 de julho de 2024, e o Delta FIP, em 5 de julho do mesmo ano. As datas coincidem com o período de aumento de capital do Banco de Brasília – quando os fundos compraram ações e se tornaram acionistas do banco. A análise do BRB aponta que ambos tinham relações com o Banco Master, "mesmo que de forma indireta". Meses depois dos aportes feitos pelos fundos, a seta se inverteu: o Banco de Brasília é que passou a adquirir carteiras de crédito do Master. Justiça do DF determina suspensão da lei que permite uso de terrenos públicos como garantia para empréstimos do BRB Jornal Nacional/ Reprodução "A partir do terceiro trimestre de 2024, o BRB passou também a adquirir carteiras de crédito consignado parcelado, cartão consignado e cartão consignado beneficio do Banco Master. [...] No acompanhamento das carteiras, foram identificadas operações cujo documentos estavam em desacordo com a padronização contratual estabelecida pelo BRB", afirmou o relatório. Ao todo, o Master ofereceu 47 fundos ou títulos de crédito como garantia para essas carteiras adquiridas pelo BRB a um custo total de R$ 16,7 bilhões. Boa parte dessas garantias, no entanto, foi questionada pelo BRB. Fundos aportaram mais que o próprio patrimônio O documento questiona, por exemplo, o fato de os fundos Borneo e Delta terem comprado um volume de ações maior que o próprio patrimônio indicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O Borneo FIP aparece nas operações com aproximadamente R$ 216,9 milhões em ações do BRB. Antes da operação, no entanto, o fundo tinha patrimônio líquido de apenas R$ 129,3 milhões, segundo o comunicado do BRB. No caso do Delta FIP, o fundo utilizou R$ 51,7 milhões para adquirir ações do BRB. Segundo o relatório, o patrimônio líquido informado posteriormente era de R$ 29,7 milhões, valor significativamente menor. Criado em 8 de agosto de 2023, o Verbier FIP Multiestratégia também aparece entre os fundos que compraram ações do BRB. Com um patrimônio líquido de R$ 163,6 milhões, o fundo investiu R$ 406,3 milhões em ações do banco – mais que o dobro do próprio tamanho. Na prática, é como se esses fundos não tivessem lastro pra sustentar a compra dessas ações. Segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), os três fundos têm como único cotista outros fundos. Dois deles, o Borneo FIP e o Delta FIP, eram administrados pela Reag. Dono do Banco Master lucrou mais de R$ 440 milhões em operações suspeitas com fundos da Reag Fundos e garantias sem lastro Além dos fundos sem lastro comprando volumes altos em ações do BRB, o banco indicou ao Coaf que havia problemas também nas garantias apresentadas pelo Master ao vender carteiras de crédito. O BRB diz que descobriu, após a compra, que as carteiras adquiridas do Master não pertenciam ao banqueiro Daniel Vorcaro – mas sim, a uma outra empresa chamada Tirreno. Era como uma revenda, não informada anteriormente. A partir dessa descoberta, o Banco Master começou a substituir as garantias que tinha atrelado a essas carteiras. E o BRB diz que, ao investigar, constatou que esses fundos usados como garantia também não tinham lastro. Os documentos citam estruturas como o FIP Multiestratégia Trevi, o FIP Multiestratégia Strelitzia e o FIP SH – Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, apresentados ao BRB como alternativa. Em alguns casos, o comunicado descreve os fundos como uma estrutura em cadeia – "fundos investindo em fundos". Entenda a dinâmica no vídeo abaixo, que narra uma conduta similar em outros fundos vinculados à Reag: Relações do Banco Master com Reag estavam na mira do BC desde 2024 Segundo o relatório, a maior parte da carteira do Trevi era composta por cotas do fundo Novo Bairro FIP Multiestratégia, que por sua vez investia principalmente em cotas do REAG Referenciado DI Cash II. Na prática, isso significa que o fundo oferecido ao BRB como substituição de ativos investia em outro fundo ligado à mesma gestora, que por sua vez aplicava recursos em um terceiro veículo também administrado pelo grupo Reag. O dinheiro circulava, mas não saía das mãos do mesmo grupo. Segundo o banco, esse tipo de estrutura dificulta a identificação dos investidores finais e a avaliação do risco efetivo dos ativos oferecidos nas operações. Uma das propostas envolvia a aceitação de cotas do FIP Trevi no valor aproximado de R$ 300 milhões como substituição de ativos adquiridos anteriormente do Banco Master. Outras propostas semelhantes envolvem cotas do FIP Multiestratégia Strelitzia e do FIP SH, cada uma estimada em cerca de R$ 350 milhões. Nos três casos, os relatórios apontam que os fundos eram estruturas exclusivas ou com cotistas não identificados, fator que foi registrado como ponto de atenção pelo BRB. ➡️A Reag também foi alvo da Operação Compliance Zero, a mesma que investiga o Master e que levou Vorcaro de volta à prisão no último dia 4. ➡️ A suspeita dos investigadores é que a gestora atuou na estruturação e administração de fundos suspeitos de movimentar recursos de forma atípica, inflar resultados e ocultar riscos, com indícios de fraude e lavagem de dinheiro. ➡️ A empresa do setor financeiro também foi alvo da operação Carbono Oculto, que investiga a máfia dos combustíveis e ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC). ➡️ Em janeiro, o banco central decretou a liquidação da Reag Investimentos. Estruturas repetidas de crédito de R$ 300 milhões com fundos da Reag Nos comunicados enviados ao Coaf, o BRB destacou um conjunto de quatro operações de crédito com estrutura praticamente idêntica, cada uma envolvendo R$ 300 milhões em direitos creditórios apresentados ao banco. Como garantia, foram listadas cotas de fundos geridos pela própria Reag, e também criados próximos das operações. As operações estavam ligadas às empresas: Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias; Revee Real Estate Venues e Entertainment Participações; FDC Empreendimentos, Administração e Participação; iFly Brazil Indoor Skydiving. Em cada caso, o Banco Master concedeu um crédito de cerca de R$ 458,6 milhões por meio de uma Cédula de Crédito Bancário (CCB). Depois disso, parte desse crédito — R$ 300 milhões — foi oferecida ao BRB por meio da cessão de direitos creditórios, mecanismo em que um banco vende a outro o direito de receber os pagamentos de um empréstimo. As quatro operações tinham condições muito semelhantes, com prazo de 60 meses para pagamento em 36 parcelas, em faturas mensais de cerca de R$ 12,7 milhões. Em todos os casos, as garantias eram cotas de fundos de investimento criados pouco antes da concessão dos empréstimos, também vinculados às empresas que receberam os créditos. Os fundos citados pelo BRB são: Revee Cash Fundo de Investimento Financeiro Multimercado Crédito Privado, criado em 18 de março de 2024; Brain Cash Fundo de Investimento Financeiro Multimercado Crédito Privado, criado em 4 de abril de 2024; Carolina Cash Fundo de Investimento Financeiro Multimercado, criado em 23 de abril de 2024; iFly Cash Fundo de Investimento Financeiro Multimercado, criado em 21 de maio de 2024. Além disso, os relatórios apontam que os fundos realizaram aportes superiores a R$ 400 milhões em um mesmo veículo financeiro chamado D Mais FIDC NP, também gerido pela Reag e que posteriormente foi cancelado. Como mostrou o Jornal Nacional, a Brain Realty Consultoria e o fundo Brain Cash faziam parte de uma "ciranda" de fundos da Reag utilizada pelo Master para inflar o patrimônio do banco. Outras propostas de substituição de ativos O relatório também aponta inconsistências em diferentes tipos de ativos, como direitos creditórios e certificados de recebíveis imobiliários (CRI), oferecidos como alternativa às carteiras originalmente compradas pelo BRB. Uma das operações analisadas envolve a empresa Gran Viver Urbanismo, em proposta estimada em cerca de R$ 213 milhões. Segundo o BRB, dois dos beneficiários finais ligados à operação — Natan Aparecido Santos Barros e Everton Mendonça Pereira — aparecem em bases públicas como beneficiários do auxílio emergencial pago durante a pandemia de Covid-19. O documento também aponta que a renda presumida de Natan Aparecido Santos Barros registrada em bases de dados consultadas pelo banco era de até R$ 1,50, valor incompatível com uma operação de R$ 213 milhões. LEIA TAMBÉM: CPMI DO INSS: Presidente diz que Polícia do Senado vai investigar possível entrada de câmera em sala-cofre que guarda dados de Vorcaro BC anuncia liquidação do Banco Master Múltiplo, antes sob regime especial de administração Leia mais notícias sobre a região no g1 DF.

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