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As mulheres que se arrependem de serem mães: 'Uma armadilha impossível de escapar'

2026-03-20 - 19:20

As mulheres que se arrependem de serem mães: 'Uma armadilha impossível de escapar' Getty Images via BBC Carmen adora seu filho de 10 anos de idade. Mas ela conta que, se pudesse voltar no tempo, nunca teria sido mãe. "A maternidade acabou com a minha saúde, meu tempo, meu dinheiro, minha força e meu corpo", segundo ela. "O preço é alto demais e o custo é para sempre." Carmen é professora e está na casa dos 40 anos. Ela faz parte de uma comunidade oculta de mulheres que se arrependem de terem tido filhos. Este arrependimento raramente é expresso em voz alta. Veja os videos em alta do g1 Veja os vídeos que estão em alta no g1 As mulheres que entraram em contato com a reportagem só concordaram em contar como se sentem em condição de anonimato. Elas receiam ser objeto de julgamentos severos e suas famílias não conhecem seu sentimento. Carmen tentou expressar seu arrependimento em palavras em um fórum geral de pais há alguns anos. Ela conta que algumas pessoas demonstraram empatia, mas outras reagiram como se ela fosse "um monstro". As extremas pressões e sacrifícios que podem envolver a maternidade são retratadas no filme Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. Sua protagonista, Rose Byrne, concorreu ao Oscar de melhor atriz de 2026, vencido por Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet). Byrne oferece um retrato visceral de uma mãe desgastada, que se sente sozinha na luta para atender às necessidades de sua filha e manter a estrutura da vida familiar. Rose Byrne interpreta Linda, uma mãe que enfrenta o estresse de tentar cuidar de sua filha cronicamente doente Logan White/A24 via BBC Carmen se identifica com o tema do filme. "A maternidade é um trabalho sem fim que você faz mesmo quando não quer, pois uma pequena pessoa depende de você", ela conta. "Parece uma armadilha da qual você não consegue escapar." Ela é inflexivelmente sincera ao expressar como ela acha que ser mãe é "devastador". Mas o brilho na sua voz é perceptível quando pergunto sobre seu filho, Teo (nome fictício). "Teo não tem nada a ver com meu arrependimento", ela conta. "Ele é um menino fantástico e adorável, que eu amo intensamente." "Daria minha vida por ele, sem dúvida. Ele é gentil, fácil de se lidar e um aluno brilhante." Para a psicoterapeuta Anna Mathur, "muitas vezes, quando as mulheres sentem segurança suficiente para falar sobre o arrependimento maternal, o que aflora não é falta de amor, mas a sensação de isolamento, exaustão ou perda de identidade". Carmen se descreve como perfeccionista. Ela considera difícil suportar a responsabilidade de criar "um bom cidadão, uma pessoa boa e feliz". Carmen prometeu a si mesma que Teo nunca se sentiria como ela enquanto crescesse. Ela vem de uma família pobre e disfuncional, "onde a violência era a linguagem principal" e nunca se sentiu amada. Inicialmente, ser mãe era "uma alegria", ela conta. Teo dormia bem e ela gostava dos dias que passava cuidando do seu bebê, quando estava em licença-maternidade. Mas tudo mudou quando seu filho começou a mostrar sérios atrasos de desenvolvimento. "Cada momento simples se transformou em motivo de observação e preocupação", segundo Carmen. "Eu me senti muito culpada", ela conta, "e receei que sua vida se tornaria uma luta." Por fim, Teo não foi diagnosticado com as condições temidas por Carmen. Agora, ele se sai bem, mas a mãe afirma que o estresse e a preocupação constante fizeram com que ela desenvolvesse uma doença autoimune. As mulheres que se arrependem de serem mães: 'Uma armadilha impossível de escapar' Getty Images via BBC Relacionar o arrependimento materno a pais negligentes e pouco amorosos é uma conclusão precipitada, segundo a socióloga israelense Orna Donath, autora do livro Regretting Motherhood: A Study ("Maternidade arrependida: um estudo", em tradução livre). Donath entrevistou 23 mães. Cada uma delas enfatizou a diferença entre seus sentimentos de arrependimento da maternidade e como elas se sentiam em relação aos seus filhos. Diversas se sentiam enganadas pela maternidade porque a realidade não correspondia à versão idealizada vendida pela sociedade. "Lamento ter tido filhos e sido mãe, mas amo os filhos que tenho", diz uma participante do estudo, mãe de dois adolescentes. "Eu gosto que eles estejam aqui, simplesmente não quero ser mãe." Os poucos dados disponíveis indicam que esta sensação não é incomum. Um estudo de 2023, realizado na Polônia, estima que 5 a 14% dos pais se arrependem da sua decisão de ter filhos e optariam por não ser pais, se tivessem uma nova chance. Os pais podem não falar abertamente sobre o arrependimento, mas eles estão encontrando uma comunidade na internet. Carmen percebeu que não estava sozinha quando entrou no grupo do Facebook I Regret Having Children ("Eu me arrependo de ter filhos", em tradução livre), com 96 mil membros espalhados pelo mundo. "A maternidade é repleta de doces momentos, mas eles não compensam a liberdade que eu poderia ter no lugar deles", declarou à BBC uma das mães do grupo. Ela mora na Austrália e tem uma filha de cinco anos de idade. "Uso bem a minha máscara em frente à minha filha", ela conta. "Mas, quando ela está na cama e meu marido e eu temos aquela janela curta de tempo de qualidade juntos, tiro minha máscara e prefiro ficar sozinha." Ter um filho significa que as finanças são apertadas e todos os seus objetivos e ambições (como viajar, abrir um negócio e construir um portfólio de investimentos) foram colocados de lado. "Perdi toda a motivação para tudo", segundo ela, "exceto tentar criar um ser humano decente neste mundo confuso." As mulheres que se arrependem de serem mães: 'Uma armadilha impossível de escapar' Getty Images via BBC Outra mãe, esta do Reino Unido, afirma que acha um "menosprezo" quando as pessoas consideram que uma mãe infeliz deve estar sofrendo de depressão pós-parto. "As pessoas ficam mais confortáveis rotulando desta forma. Meus filhos, agora, são adultos e eu ainda lamento a vida que nunca consegui ter." "Agora, minha preocupação é ter que cuidar dos futuros netos", ela conta. "A criação não acaba nunca." O grupo do Facebook foi criado em 2007. Seu conteúdo vem direto dos pais (principalmente, mulheres) que enviam mensagens privadas com suas histórias, para que sejam postadas de forma anônima. A moderadora do grupo é a cientista de laboratório norte-americana Gianina, de 44 anos. Ela conta que "o objetivo nunca foi envergonhar os pais, nem promover um estilo de vida específico". "É mais questão de documentar um fenômeno cultural que, muitas vezes, não tem espaço nas conversas comuns", segundo ela. "A comunidade é grande e ativa porque muitas pessoas lutam silenciosamente com sentimentos que, segundo ouviram, não deveriam existir." Gianina tinha dúvidas se deveria ter filhos e conta que a leitura das histórias no fórum influenciou sua decisão de não ser mãe. Os jovens adultos atuais abordam a questão de ter filhos de forma muito diferente das gerações anteriores, segundo a psicoterapeuta irlandesa Margaret O'Connor, especializada em ajudar as pessoas a decidir se devem ou não ser pais. "Existe muito mais percepção de que isso é uma escolha", segundo O'Connor. "Não é algo automático, que você precisa fazer." "Tenho pessoas que me procuram na casa dos 20 e 30 anos de idade que sabem que querem ter filhos, mas ainda se preocupam um pouco com as dificuldades e gostariam de ter mais apoio para enfrentar isso." É difícil indicar os sinais vermelhos que podem levar uma mulher a se arrepender da sua decisão de buscar a maternidade, alerta O'Connor, pois a experiência de cada pessoa é única. "Você precisa ter a máxima certeza possível sobre esta grande decisão e tomá-la por seus próprios motivos... não por pressões externas do seu parceiro ou dos seus pais", ela conta. Ela também aconselha a não comprar com tanta rapidez a ideia de "aldeia" que todos irão defender. "A mensagem que recebemos, geralmente, é 'todos estaremos aqui para cuidar do bebê", destaca ela. "Mas as pessoas, muitas vezes, não estão. É o seu bebê e você será responsável por ele." Para O'Connor, é totalmente normal que os pais se arrependam, considerando a dimensão e o grau de exigência da função. Ela sugere procurar um terapeuta para tentar descobrir a causa desse arrependimento e falar "em um espaço seguro, onde não haverá julgamentos". O arrependimento maternal nem sempre é "pura ou totalmente reversível", segundo Mathur. "Para algumas mulheres, estes sentimentos [de arrependimento] são significativamente reduzidos ou se alteram com o apoio, descanso, tempo e mudança das circunstâncias", orienta ela. "Mas, para outras, elementos desta sensação ainda assim podem permanecer e é importante dar espaço para esta honestidade, sem sentir vergonha." As mulheres que se arrependem de serem mães: 'Uma armadilha impossível de escapar' Getty Images via BBC O estudo de Orna Donath também concluiu que, para algumas pessoas, o arrependimento da maternidade é uma sensação que nunca desaparece. "Todas as mulheres com quem conversei tentam fazer o seu melhor, paralelamente ao seu arrependimento", ela conta. "Há alguns anos, recebi uma carta de uma mulher que se arrepende de ser mãe", ela conta. "Ela escreveu que o que a ajuda não é ter esperança de que, um dia, isso desapareça... Ela prefere aceitar em vez de lutar contra isso e ficar desolada toda vez que perceber que não irá passar." Carmen acredita que a sensação é permanente, "pois o sacrifício é para sempre". Mas ela consulta um terapeuta há alguns anos e afirma que ele a ajudou a se aceitar e reconhecer como se sente em relação à maternidade. "Não vivo mais me sentindo amarga", ela conta. Agora, Carmen reserva um tempo para ir à academia, encontrar amigos e tenta se permitir não lutar pela perfeição. "Finalmente posso dizer 'não, desculpe, estou cansada e vou dormir cedo. Coma o que quiser na janta; o papai está aqui.'" Ela aprendeu que, quando faz isso, o mundo não implode. "Teo observa que sou um ser humano, que não sou perfeita, e aceita isso." Pergunto a Carmen qual o momento mais feliz que ela passa com seu filho. Ela responde que, todas as noites, antes de Teo ir dormir, eles sobem na mesma cama e contam seu dia um para o outro. Teo se esquiva para o calor do edredon e se aconchega junto à mãe. "É ali que entro realmente em conexão com Teo e observo a pessoa que mais amo no mundo", ela conta. "Deixo de me sentir um monstro."

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