Anvisa alerta para risco de grave dano ao fígado ligado a suplementos de cúrcuma; entenda
2026-03-09 - 11:13
Pó utilizado na culinária é considerado seguro; alerta é referente a suplementos alimentares com altas doses da especiaria. Prachi Palwe/Unsplash A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta de farmacovigilância sobre o risco raro de inflamação e danos ao fígado associados ao uso de medicamentos e suplementos alimentares que contêm cúrcuma —também conhecida como açafrão. A decisão foi tomada após avaliações internacionais identificarem casos suspeitos de intoxicação hepática em pessoas que utilizaram produtos com cúrcuma ou curcuminoides, especialmente em cápsulas ou extratos concentrados. Segundo a agência, o problema está ligado principalmente a formulações desenvolvidas para aumentar a absorção da curcumina —principal composto ativo da cúrcuma— fazendo com que o organismo receba doses muito maiores do que aquelas obtidas no consumo alimentar. Autoridades regulatórias de países como Itália, Austrália, Canadá e França já haviam emitido alertas semelhantes após registrarem casos de problemas hepáticos associados ao consumo desses suplementos. Na França, por exemplo, a Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, do Meio Ambiente e do Trabalho (ANSES, na sigla em francês) identificou dezenas de relatos de efeitos adversos ligados ao consumo de suplementos contendo cúrcuma ou curcumina, incluindo episódios de hepatite. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Doses elevadas e uso sem orientação De acordo com Pedro Bertevello, cirurgião do aparelho digestivo da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, os casos de lesão hepática tendem a ocorrer principalmente quando os produtos são usados em doses altas ou sem orientação médica. Segundo ele, muitas pessoas acreditam que suplementos naturais são totalmente seguros e acabam aumentando a quantidade por conta própria. “Existem doses consideradas seguras para o uso dessas substâncias. O problema é que muitas pessoas tentam potencializar os efeitos e acabam consumindo quantidades muito maiores do que o necessário”, afirma. O médico explica que a falta de padronização na concentração dos produtos também pode contribuir para o risco. “Nem sempre há uma regulação clara da concentração dessas substâncias. Muitas pessoas compram suplementos sem conhecer bem a procedência ou a dose real do produto”, diz. Como suplementos de cúrcuma podem afetar o fígado A cúrcuma é uma planta usada há séculos como tempero e também em preparações medicinais. O principal composto ativo é a curcumina, substância com propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. No entanto, nos suplementos alimentares a curcumina costuma aparecer em doses muito mais altas do que aquelas consumidas na alimentação. Além disso, muitas formulações incluem substâncias ou tecnologias que aumentam a absorção da curcumina pelo organismo —como a piperina, presente na pimenta-preta. Isso faz com que uma quantidade muito maior do composto seja metabolizada pelo fígado, órgão responsável por processar e eliminar diversas substâncias presentes no sangue. Em algumas pessoas, esse processo pode desencadear uma reação inflamatória nas células hepáticas, levando a um quadro conhecido como hepatite medicamentosa —um tipo de lesão hepática induzida por substâncias químicas ou medicamentos. Segundo Bertevello, o risco costuma estar associado ao uso de doses elevadas ou à combinação com outros medicamentos. “Quando investigamos melhor esses casos, muitas vezes encontramos pessoas que usam várias substâncias ao mesmo tempo ou que aumentam a dose por conta própria, acreditando que por ser natural não haverá efeitos no organismo”, afirma. Ele destaca que essas reações são consideradas raras, mas podem ocorrer principalmente em pessoas que usam doses muito altas, produtos de procedência desconhecida ou combinações com outros medicamentos que sobrecarregam o fígado. Uso culinário não oferece risco A Anvisa destaca que o alerta não se aplica ao uso da cúrcuma na alimentação. O pó utilizado na culinária —comum em temperos e pratos como curries— é considerado seguro, já que as quantidades consumidas na dieta são muito menores do que as presentes em suplementos concentrados. Sintomas que podem indicar problema no fígado A agência orienta que usuários desses produtos procurem avaliação médica caso apresentem sinais compatíveis com possível lesão hepática, como: pele ou olhos amarelados (icterícia); urina escura; cansaço intenso sem causa aparente; náuseas ou dor abdominal. A recomendação é interromper imediatamente o uso e procurar atendimento de saúde caso esses sintomas apareçam. Eventos adversos podem ser comunicados aos sistemas de monitoramento da Anvisa: o VigiMed, voltado para medicamentos, e o e-Notivisa, utilizado para registrar problemas relacionados a suplementos e outros produtos. Medidas adotadas pela Anvisa Como medida preventiva, a agência determinou a atualização das bulas de medicamentos que contêm cúrcuma, incluindo avisos de segurança. Entre eles estão os produtos Motore e Cumiah. No caso dos suplementos alimentares, a Anvisa informou que abrirá um processo de reavaliação do uso dessas substâncias, além de exigir a inclusão de advertências obrigatórias sobre possíveis efeitos adversos nos rótulos.