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A onda dos peptídeos para beleza: por que pessoas estão injetando 'drogas milagrosas' que não são para consumo humano

2026-03-02 - 21:03

Katie faz parte de um grupo cada vez maior de pessoas que se filmaram nas redes sociais injetando peptídeos não aprovados para consumo Reprodução/via BBC Katie retira cuidadosamente uma seringa da embalagem. Ela perfura o topo de uma pequena ampola com um líquido azul e puxa o êmbolo. Ela se vira e injeta a agulha no alto das nádegas, mostrando para a câmera o polegar voltado para cima. Katie parece satisfeita. Há várias semanas, ela vem injetando GHK-Cu, um peptídeo de cobre, e está confiante de que a substância está fazendo diferença para sua pele. Tanto que, segundo ela, as marcas de estiramento que haviam surgido depois do nascimento dos seus dois filhos quase desapareceram. A única questão levemente desconcertante é que o rótulo do frasco diz claramente "apenas para fins de pesquisa". Ou seja, o peptídeo não é apropriado para consumo humano. Katie faz parte de um grupo cada vez maior de pessoas que se filmaram nas redes sociais injetando peptídeos não aprovados para consumo. Ela parece inabalável, apesar do alerta, e acredita que o produto é seguro. Veja os vídeos que estão em alta no g1 As redes sociais estão repletas de anúncios e vídeos de influenciadores aplicando em si próprios diversas misturas de peptídeos vendidos apenas para fins de pesquisa Especialistas afirmam que muitos desses produtos são perigosos "Fiz muitas pesquisas e estou agindo com cautela", ela conta. "Comecei com muito pouco. Apenas para ter certeza de que não iria observar nada de estranho." Katie afirma que o peptídeo também aumentou a espessura do seu cabelo e melhorou a textura da pele. GHK-Cu é um peptídeo fabricado pelo nosso corpo. Ele é usado topicamente em cremes para a pele, para reduzir as linhas finas. Mas não é considerado seguro para injeção devido à falta de pesquisas científicas e aos riscos de despertar reações imunológicas potencialmente perigosas. Os peptídeos são cadeias curtas de aminoácidos, ou pequenas proteínas, que os nossos corpos produzem naturalmente. Eles agem como mensageiros, dizendo às nossas células o que elas devem fazer. E também desempenham papéis vitais para a saúde da pele e do sistema imunológico, além de ajudar a controlar nossos hormônios. Os peptídeos são usados para tratar condições médicas há mais de um século. A insulina, o primeiro peptídeo a ser descoberto, ajuda as pessoas com diabetes do tipo 1 e algumas do tipo 2 a administrar o nível de açúcar no sangue. Peptídeos bioativos são produzidos em uma fábrica em Jingzhou, no centro da China Huang Zhigang/VCG via Getty Images Agora, peptídeos não regulamentados vêm explodindo no mercado de bem-estar, desde que os GLP-1s se tornaram remédios padrão para perda de peso. Os GLP-1s são medicamentos que imitam o hormônio peptídeo similar a glucagon-1, um hormônio que produzimos naturalmente no corpo e ajuda a regular nossos níveis de fome. Os GLP-1s passaram por extensos testes humanos e são aprovados, por exemplo, pelo organismo regulador de medicamentos do Reino Unido (a MHRA). No Brasil, eles foram aprovados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Mas está surgindo um mercado paralelo de outros peptídeos. Esses peptídeos ocupam uma zona legal e regulatória intermediária. Sua compra ou posse não são ilegais, mas, ao mesmo tempo, eles não são aprovados para uso humano. Por isso, eles não estão sujeitos aos controles de qualidade que regem a fabricação de produtos farmacêuticos. "Estamos observando uma tempestade perfeita", explica o clínico geral Mike Mrozinski. Para ele, "o sucesso das drogas GLP-1 regulamentadas 'normalizou' o uso das agulhas, reduzindo a barreira psicológica à autoinjeção." "As pessoas observam os resultados transformadores dos peptídeos em grau farmacêutico e consideram, de forma errônea, que todos os peptídeos são inerentemente seguros." As redes sociais estão repletas de anúncios e vídeos de influenciadores injetando em si próprios diversas misturas de peptídeos que são vendidos apenas para fins de pesquisa. Se você quiser aumentar a massa muscular e acelerar a recuperação, há quem afirme que BPC 157 faz isso. Trata-se de um peptídeo sintético derivado de proteínas gástricas humanas. Estudos iniciais com animais sugerem possível ação na cura de feridas e proteção do intestino. Se você precisa reduzir inflamações do corpo e melhorar sua saúde metabólica, alguns dizem que vale a pena tentar TB 500. "As pessoas que usam esses produtos estão essencialmente se tornando ratos de laboratório", segundo o professor de anatomia Adam Taylor, da Universidade de Lancaster, no Reino Unido. "Existem alguns dados disponíveis, mas em modelos pré-clínicos. Basicamente, eles foram testados em animais, mas não em seres humanos." Taylor vem acompanhando o crescimento deste mercado há mais de um ano. Ele conversou com pessoas que sofreram efeitos colaterais, como tonturas, diarreia, irritações e inchaço das pernas. Ele receia que as pessoas possam estar arriscando suas vidas a longo prazo. Além da falta de estudos robustos desses peptídeos, Taylor afirma que muitos dos produtos sendo vendidos são perigosos. Algumas pesquisas testaram vários dos peptídeos existentes no mercado e indicaram que 12% deles contêm endotoxinas bacterianas. As endotoxinas bacterianas, segundo Taylor, podem nos "enfraquecer seriamente". Em pequenas doses, elas podem causar febre, cansaço e dores. Mas, em grandes quantidades, podem gerar condições mortais, como choque séptico. Jack Sarginson decidiu "acumular peptídeos" para se recuperar de uma lesão nas costas sofrida na academia. O jovem de 24 anos começou a injetar um coquetel de peptídeos chamado Wolverine, em dezembro do ano passado. A injeção pretende fornecer poderes regenerativos de "super-herói", como o personagem da Marvel de quem recebeu o nome. Sarginson conta que, em questão de duas semanas, observou "recuperação significativa", "literalmente sem efeitos colaterais". Na quinta semana, ele conta ter ficado "virtualmente livre de dores" e capaz de fazer coisas que não conseguia "há bastante tempo". Antes de testar os peptídeos, Sarginson afirma que consultou seu clínico geral e recebeu sessões de fisioterapia. Mas, mesmo fazendo consistentemente os exercícios recomendados, não estava melhorando. Ele conta que a situação chegou ao ponto de prejudicar seu dia a dia e começou a se sentir "muito abatido". "Sei que existem dois lados", segundo ele. "E, para algumas pessoas, injetar drogas pode ser uma medida bastante extrema." "Mas acho que, depois da covid, as pessoas estão procurando formas de controlar sua própria saúde. Acho que os peptídeos podem ser benéficos, se forem usados com responsabilidade." Cultura da 'cobaia' Neste estágio, o uso de peptídeos não regulamentados não é "biointrusão", mas uma aposta biológica, segundo Mrozinski. "Se esta cultura da 'cobaia' se espalhar, estaremos sujeitos a uma crise de saúde pública, com 'misteriosas' condições crônicas causadas por esses peptídeos não regulamentados, que o sistema médico tradicional ainda não está equipado para reverter", explica ele. Com milhões de postagens sobre peptídeos se espalhando nas redes sociais, cresce o número de clínicas oferecendo terapia com peptídeos. Syed Omar Babar é consultor de atendimento de emergência e diretor da Clínica Healand em Leicester, no Reino Unido. Ele oferece terapia com peptídeos, usando peptídeos não regulamentados, como BPC-157 e TB-500, entre muitos outros. Ele acredita que estamos em uma "era de ouro" para os peptídeos e que eles terão enorme participação no futuro da assistência médica. Pergunto, então, por que não existem testes padrão-ouro em seres humanos, se esses peptídeos são tão seguros e eficazes, e por que eles não são aprovados como remédios. Babar responde que a questão é de financiamento. Levar um produto dos estudos com animais para testes com seres humanos, até chegar a um remédio totalmente aprovado, exigiria anos e custaria bilhões de dólares. Ele explica que as grandes empresas farmacêuticas não têm interesse em financiar este processo. "Muitos dos peptídeos em discussão são totalmente naturais", afirma Babar. "Nosso corpo os produz, o que faz com que seja difícil patenteá-los." "Eles precisam ser significativamente diferentes da sua forma natural, o que é complicado com os peptídeos." E, sem a patente, as empresas se arriscam a despejar dinheiro em um produto com pouca proteção financeira. Babar afirma que as terapias com peptídeos oferecidas pela sua clínica são supervisionadas por um médico credenciado pelo Conselho Médico Geral do Reino Unido (GMC, na sigla em inglês). Mas, como esses produtos não são regulamentados e "não existem instruções" sobre seu uso, a questão se resume à experiência e médicos como ele estão aprendendo "uns com os outros". Quais os riscos de caneta emagrecedora manipulada?

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